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Atire no Dramaturgo - um blog de Mário Bortolotto


SÁBADO (DIA 11 DE FEVEREIRO) TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nesse sábado (dia 11/02), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Club Noir (Rua Augusta, 331) a partir das 23h.

A gente toca em formato acústico.

A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Marcelo Watanabe e Ziggy (violões) Fábio Pagotto (baixo) 

O couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 11h17
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MINHA MÃE SEMPRE APAGAVA A LUZ NA HORA DE DORMIR

Ela me ligou perguntando onde é que eu tava. Ah, ela sabia que eu tava num bar, não sei por que perguntou. Mas ela queria saber qual bar que era. Eu sou um cara previsível. Ou eu tô num bar ou tô nos outros dois. E ela chegou e eu a vi atravessar a rua com aquela elegância que era só dela e entrar naquele bar mal afamado que não estava acostumado a esse tipo de frequência. Mas naquele tempo ela não se importava de entrar num bar não condizente com ela pra me encontrar. Mas naquele tempo eu nem tinha real noção de que aquele bar não era condizente com ela. Eu sempre imaginava que se era condizente comigo, podia ser condizente e agradável pra qualquer pessoa. Toda a minha inocência vagabunda me autorizava a pensar dessa forma arrogante. Eu já tava no meu quarto whisky e juro que fiquei feliz por ela estar ali, era um tipo de felicidade que eu não sabia explicar. Na verdade eu ainda não sei explicar. Eu não sei explicar momentos felizes. Quem sabe fazer isso é o Odair José. Sou um cara que se aproveita de qualquer nocaute, de qualquer chute na boca ou de qualquer música do Lupicínio Rodrigues. Mas não sou bom nesse negócio de me sentir feliz. Não sei direito o que fazer com isso. Minha calça não tem tantos bolsos assim. Talvez por isso eu me sentisse "feliz" (acho que posso chamar assim), mas me sentisse totalmente inadequado, tipo carta no endereço errado. Mas eu pedi o quinto whisky e fui ficando relaxado. E os amigos foram chegando e a mesa foi ficando cheia. E eu brinquei que ela era minha namorada e deitei minha cabeça em seus seios. Naquele tempo eu ainda me dava ao luxo de brincar. Eles não entendiam de onde eu havia tirado tanta intimidade. E na verdade nem eu entendia. Acho que já disse que entendo pouca coisa, né? Acho que o quinto whisky me deu essa permissão. Mas aí outra delas chegou. Naquele tempo sempre havia outra. E outra. Que chegou logo depois. E eu gostava de todas elas. E eu gostava muito de todas elas. E eu nunca quis magoar ninguém e eu não me sentia a vontade. Minha vaidade de moleque irresponsável até curtiu aquilo, minhas andanças noturnas, minha distancia do que eu chamava de lar e meu sarcasmo diante de minha própria vida. Enfim, tudo me dava a devida permissão para me sentir meio orgulhoso do momento. Isto é, se eu não percebesse o pino saltando da granada, um vietcongue riscando o fósforo depois de sorrir de maneira sinistra, um abutre levantando voo com aquele tipo de precisão malévola. "Deus salve a América", foi o que eu pensei quando levantei sem me despedir direito e atravessei a rua em direção a um bar que me inspirasse mais segurança mesmo com todos aqueles torresmos na estufa e toda a música sertaneja nos mais altos decibéis. Encostei num balcão e pedi o que eles chamam de whisky por ali. Fiquei imaginando ela atravessando a rua de volta pro seu carro com toda aquela elegância particular e rezei timidamente pra que tudo corresse bem pra ela e pras outras que eu gostava tanto e que eu me senti o maior canalha por levantar daquele jeito e fugir e pra mim e pra aquele sujeito que pedia outra música sertaneja e pro cara que se entupia de torresmo e pro amigo que foi pego no flagra pela namorada com outra no banheiro e pra namorada do amigo que pegou o namorado com outra no banheiro e pros meninos da aldeia que estava sendo incendiada naquele momento que já era outro dia em outro lugar do mundo e pros casais de namorados passeando no parque ou saindo do cinema. Naquele tempo eu esperava o dia amanhecer, uma nuca como um convite e um Jesus Cristo em Preto e Branco pendurado sobre a cabeceira da cama dela. Naquele tempo eu tinha pra onde voltar. Eu só preciso me acostumar aos novos tempos. Ou fazer o tempo voltar. Ainda não tenho a menor idéia pra onde é que eu vou. Mas eu tenho uma certa noção de como andar no escuro.



Escrito por Mário Bortolotto às 11h14
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SACO DE RATOS NO MIQUELINA BAR NESSA QUINTA-FEIRA

Nessa quinta-feira (dia 09/02), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Miquelina Bar (Rua Francisco Miquelina, 306) a partir das 21h30.

A gente toca em formato acústico.

A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Diego Basanelli (violões) Fábio Pagotto (baixo) e Rick Vechione (bateria)



Escrito por Mário Bortolotto às 21h02
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REZEM PRO VELHO ALMA

Esse papo pode parecer machista, e se acharem mesmo que é, tudo certo, mas na verdade eu acho que é exatamente o contrário. Pensem bem, no tempo dos meus pais as mulheres tinham funções muito bem definidas. Elas lavavam a roupa, faziam a comida e limpavam a casa enquanto os homens estavam fora trabalhando e garantindo o sustento (?) da casa. Então veio todo o lance da emancipação feminina. E a emancipação só foi possível (toda a luta das feministas a parte) porque inventaram a máquina de lavar por exemplo. Imaginem um mundo sem máquina de lavar roupa. A máquina de lavar libertou a mulher do tanque. A máquina de lavar libertou a minha mãe do tanque. Hoje uma jovem mulher que não viveu essa época pode até dizer: "que se foda. O homem deveria ir pro tanque". Bom, é fácil falar isso agora depois de toda a emancipação, mas não era assim no tempo dos nossos pais. Foi a máquina de lavar que começou tudo, podem ter certeza disso. E a mulher não precisou mais ir pro tanque e começou a ir pra outros lugares. E muitos homens se sentiram ameaçados por todo o tempo que a mulher estava ganhando. E a mulher começou a assumir lugares na sociedade que antes eram destinados apenas aos homens. E foi a máquina de lavar que ofereceu o start dessa possibilidade. Mas a verdade é que os homens (mesmo os mais machistas e que gostavam de ter as mulheres em lugares muito bem definidos até pra se sentirem mais seguros) deviam agradecer ao inventor da máquina de lavar. Pois com o advento dela os homens também não precisavam mais da mulher pra lavar a sua roupa. O homem moderno (quem diria que um dia eu me imaginaria sendo um "homem moderno") tem sua própria máquina de lavar e lava sua roupa. Tem o seu próprio micro-ondas e prepara sua comida. Alguns como eu tem até o seu foreman grill e prepara os seus bifes e sanduíches de queijo. Em resumo, o homem moderno já não precisa da mulher pra cuidar da sua vida. O homem moderno não precisa cuidar da vida da mulher. A emancipação na verdade veio pros dois e não apenas pra mulher. Então hoje em dia se um homem quiser ficar com uma mulher e vice-versa, é apenas por que os dois estão muito a fim de ficar juntos e não é mais um jogo de opressão e subserviencia. Eu, particularmente gosto muito disso. Eu não entendia muito bem porque a minha mãe tinha que ficar lavando roupa no tanque e gostei muito quando o meu pai comprou uma máquina de lavar pra ela, embora ela não tenha se adaptado muito bem àquela modernidade e ainda ficou muito tempo lavando a roupa no tanque. Ela colocava a roupa na máquina e depois tirava e esfregava tudo de novo no tanque. Ela achava que a máquina não fazia direito. Acho que ali também havia uma idéia de que a máquina estava roubando uma função dela. E ia ficar algo do tipo "se essa merda dessa máquina fizer o meu serviço, vão descobrir que eu não sirvo pra mais nada". Minha mãe demorou pra entender as mudanças do seu tempo e que elas poderiam na verdade ser benéficas pra ela. Enfim, o que eu quero dizer com tudo isso é que hoje me sinto muito bem com minha máquina de lavar, meu forno micro-ondas e meu foreman grill. Definitivamente não preciso de nenhuma mulher na minha vida. Paradoxalmente eu diria que preciso muito de mulher na minha vida, porque sem uma mulher me sinto pela metade. Mas eu preciso dela como alguém que também não precisa exatamente de mim. E os dois ainda assim insistem que é preciso ser "dois" sem funções definidas. Nenhuma invenção genial vai conseguir separar esses dois. Há sempre algo muito mais forte que une um homem e uma mulher. E foi a máquina de lavar que tornou possível que ambos tivessem a total compreensão disso. Então se há um santo pra quem devemos rezar todas as noites é esse tal de Alma J. Fischer que dizem que inventou a máquina de lavar. Ele é o Cara. Como diria Paula Toller, "os outros são os outros e só". Porra, consegui terminar toda essa elucubração maluca citando Kid Abelha. Sou mesmo um cara esquisito. Mas pelo menos hoje eu sei que uma mulher só vai ficar comigo se ela tiver muito a fim. Ela não precisa de mim pra porra nenhuma. E isso me proporciona uma sensação muito boa. Estamos na verdade todos livres. E vai dizer que isso não é du caralho? Valeu, Velho Alma.



Escrito por Mário Bortolotto às 12h42
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SEXTA-FEIRA (DIA 03 DE FEVEREIRO) TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nessa sexta-feira (dia 03/02), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Club Noir (Rua Augusta, 331) a partir das 23h.

A gente toca em formato acústico.

A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Diego Basanelli (violões) Fábio Pagotto (baixo) e Rick Vechione (bateria)

O couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 11h56
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QUARTA-FEIRA (1 DE FEVEREIRO) TEM "SACO DE RATOS" NO EXPRESSO ORIENTE

Nessa quarta-feira (dia 01/02), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Expresso Oriente (Rua Augusta, 430) a partir das 23h.

Tel: 8228-7958

 A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Marcelo Watanabe (guitarras) Fábio Pagotto (baixo) Rick Vechione (bateria)

O couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 20h06
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TERÇA-FEIRA (VÉSPERA DE FERIADO) TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nessa terça-feira (dia 24), aproveitando que é véspera de feriado (aniversário de São Paulo), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Club Noir (Rua Augusta, 331) a partir das 23h.

A gente toca em formato acústico.

A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Marcelo Watanabe (violões) e Fábio Pagotto (baixo)

O couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 07h32
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QUINTA-FEIRA TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nessa quinta-feira (dia 19), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Club Noir (Rua Augusta, 331) a partir das 23h.

A gente toca em formato acústico.

A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Marcelo Watanabe (violões) e Fábio Pagotto (baixo)

O couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 12h19
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Meu amigo chegou em casa, olhou pra mim e falou:

"Marião, vc tá um lixo!"

Respondi: "Não vem me bajular não, tá?"



Escrito por Mário Bortolotto às 16h33
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SEXTA-FEIRA 13 TEM SACO DE RATOS NO SESC CONSOLAÇÃO

Me parece um excelente dia pra gente fazer o nosso show no Sesc Consolação.

Nessa sexta-feira 13 às 21h.

O show vai ser no Teatro do Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245)

A banda toca completa: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Marcelo Watanabe (guitarras), Fábio Pagotto (baixo) e Rick Vechione (bateria) 
Participação da bailarina Karina Ka 
Operação de iluminação - Walter Figueiredo 
Produção - Katiana Rangel 
O show começa às 21h -
Os ingressos já estão a venda em qualquer unidade do Sesc - R$ 10 (inteira), R$ 5 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante] R$ 2,50 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]


Escrito por Mário Bortolotto às 22h00
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SÁBADO TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nossa banda "Saco de Ratos" toca nesse sábado (dia 07) no Club Noir (Rua Augusta, 331) em formação acústica.

A formação será: Mário Bortolotto (vocal), Ziggy (violão), Fábio Pagotto (baixo) e Rick Vechione (bateria)

O couvert é R$ 10 e não tem consumação mínima.

Deve começar tipo 23h e não tem hora pra acabar.

 



Escrito por Mário Bortolotto às 17h21
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NOITES POÉTICAS NO BROOKLIN

Eu vou falar de um tempo de loucura. Não era pouca loucura. Nós nunca fomos de fazer pouco. A gente morava no Brooklin. Eu arrumei uma casa lá por um preço maneiro e como a gente tava totalmente no osso mudamos pra lá. Era a Fernanda e eu num quarto e o Leonardo e a namorada dele no outro. A gente dividia em quatro e mesmo assim era muito foda pra pagar. E olha que o aluguel era bem barato. Foi quando eu casei. Com a Fernanda. Antes a gente namorava. A gente namorou um tempão antes de casar. E tinha a gata da namorada do Leonardo. E ela teve uma pá de filhotes. E tinha uma gatinha filha dessa outra que a gente adotou. Mas na verdade acho que foi ela que adotou a gente. Ela não saía de perto da gente e dormia no nosso guarda-roupa. E essa gatinha era muito foda. Um dia eles (os gatos - os filhotes da gata da namorada do Leonardo) pegaram uma ratazana enorme e levaram como troféu lá pro jardim. E ninguém podia chegar perto do cadáver da ratazana. Nem o Big. O Big era o cachorro. Um cachorro que parecia um ornitorrinco. Eu comecei a chamar ele de "Big". Nem lembro qual foi o motivo. Era um cachorro estranho, todo troncho. Ele foi atropelado e tinha ficado todo torto. Quando ele andava, fazia uns barulhos estranhos na barriga dele, era como se algumas engrenagens estivessem soltas lá dentro. Era o Big. Era um cachorro esquisito. Mas era legal pra caralho. Quando a gente brigava (a Fernanda e eu), ele ficava do lado choramingando. Ele ficava triste por que a gente tava brigando. Eu não aguentava ver o Big triste e me sentia culpado por ele estar chorando. Era muito foda pra mim. O Big tinha sido o cachorro de um cara drogado e acho que por causa do contato com a droga ou por causa do contato com o cara drogado tinha ficado um bocado estranho. À primeira vista era difícil gostar do Big. Era um cachorro todo torto que parecia um ornitorrinco e nutria uma paixão doentia pela gatinha que a gente gostava. E a filha da puta correspondia à essa paixão. Ele ficava esfregando o focinho na barriga dela e ela adorava. Mas o Big era foda. E tinha uma favela na rua de baixo. E meus amigos sempre iam lá buscar crack. E eu ia com eles. E eles fumavam na cozinha. Eu não fumava. Eu não gostava. Eu sempre digo que só bebo whisky e a rapaziada pensa que eu tô mentindo. Enfim, foda-se. Mas eu ia lá com eles na favela. E bebia uma cachaça no boteco da favela. E depois eles iam lá pra casa e preparavam e usavam na cozinha. E eu ficava lá com eles, vendo os caras enlouquecerem. Quem são os caras? Ah, não interessa, né? E a Fernanda e eu? A gente brigava pra caralho. Dois temperamentos muito fortes. Não era fácil. Mas o Leo e a namorada dele também brigavam muito. A polícia ia quase todo o dia lá em casa, ou por nossa causa ou por causa deles. A gente se revezava pra polícia. Mas não era o tempo todo. Tinha coisa bacana pra caralho. Tinha a gente dançando Johnny Rivers na sala, conversando e bebendo whisky (que a Fernanda descolava nuns eventos que ela produzia) até de manhã, eu lendo meus textos novos pra ela, escrevendo "Hotel Lancaster" e achando que ia ganhar uma grana num concurso de Dramaturgia Anti-Drogas pra tirar a gente daquele buraco, os churrascos com os amigos,  as brincadeiras com os gatos e com o Big, e nossas idas ao mercado. A gente nunca tinha dinheiro pra nada, então comprava muita macarrão e salada. Era o que dava pra comer. E tinha o X-Marião, lembra, Marcião? Um sanduiche onde eu enfiava tudo o que eu encontrava. E tinha a salada de alface à limão que era o único tempero possível que o Marcião preparava quando dormia lá em casa. E era bom pra caralho. Mas é claro que a gente brigava também. Brigava bastante. No Brooklin não tinha bares. Então quando eu brigava com a Fernanda, não conseguia fugir pro bar. O que dava pra fazer era andar tipo umas quinze quadras pra chegar num super-mercado 24 horas. Eu chegava lá, comprava meia dúzia de latinhas de cerveja Cintra (a mais barata - tinha Cintra e tinha Krill - Kaiser era itém de luxo), sentava no chão do estacionamento do supermercado e ficava bebendo. Alguns cachorros vagabundos sempre chegavam perto e ficavam sentados perto de mim. Quer saber? Eu me sentia bem pra caralho. Sentado no chão daquele estacionamento, bebendo cerveja Cintra e acompanhado por aqueles cachorros. São lembranças muito caras pra mim. Das melhores que tenho. Hoje, sozinho e seguro dentro da minha kitchenete, sinto muitas saudades de ter que andar quinze quadras pra beber Cerveja Cintra sentado no chão do estacionamento só pelo fato de ter brigado com a minha mulher. E eu sabia que uma hora a Fernanda ia aparecer. Quando ela estivesse mais calma. Ela sabia onde eu estava. Eu sempre ia pra lá e ela sabia disso. Não tava tentando me esconder. Ela ia parar o carro perto de mim e dizer: "Vamos pra casa, Mário, tá tudo bem". E então eu ia me despedir dos cachorros, jogar longe a última latinha de cerveja (sim, por que naquele tempo não tinha essa frescura politicamente correta de ter que jogar a latinha no lixo. Porra, é bom pra caralho jogar a latinha pela janela do carro ou amassar e chutar ela longe ou tentar acertar a cesta com uma jogada triunfal de Magic Mario) e iria embora. E ia dormir em paz, mais uma noite. Até a próxima que talvez fosse tempestuosa, ou muito louca, ou tranquila, ou seja lá do jeito que fosse, mas o importante é que era tudo di verdade. Aquelas noites poéticas do Brooklin. Noites que eu vou sempre levar comigo. Que serviram pra construir e moldar o homem que eu sou. Não que eu seja grande coisa, é claro, mas se eu for algo de bom e alguém qualquer hora dessas perceber isso, é por que foram exatamente essas histórias e vivências que me construíram. Ninguém é algo di bom ou ruim impunemente. Hoje eu tava vendo um vídeo antigo e vi várias cicatrizes no meu rosto oriundas de uma acne nervosa que eu tinha (eu devia estar com uns 30 anos). Eu sei que aquelas cicatrizes não estão mais no meu rosto. Elas sumiram (a maioria delas). Mas só aparentemente. As que importam ainda estão aqui. Me alertando, me fazendo lembrar todos os dias quando eu acordo o sujeito falho que sou. O cara errado que sempre fui. Tão troncho e inadequado quanto o Big, o nosso cachorro ornitorrinco. E querem saber? É das poucas coisas que ainda colocam um sorriso no meu rosto. Esse tipo de lembrança. De saber quem eu sou, e por que eu sou. Hoje minha amiga Aninha (ex-namorada) me escreveu e me disse que está preocupada comiga por que percebeu que ando muito triste. Não se preocupa não, Aninha. Tenho estado bem acompanhado, não se iludam. Mesmo quando estou sozinho. Eu tenho sempre estado bem acompanhado. Como naquele estacionamento bebendo cerveja Cintra e sentado no chão com os cachorros. Porra, eu tava muito bem acompanhado. Bem acompanhado pra caralho. E esse tipo de "solidão" não se negocia.



Escrito por Mário Bortolotto às 03h54
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EM BUSCA DA SAÚDAVEL INCONSEQUÊNCIA PERDIDA

Esse ano tá acabando. Particularmente foi um ano bem ruim pra mim e tudo indica que o próximo vai ser pior. Mas eu sou um cara otimista. Tô botando a mó fé em 2.013. Se eu chegar até lá, eu sei que vai ser foda. O que eu espero pra mim e pros meus amigos é que a gente volte a ter essa saudavel inconsequencia de simplesmente três amigos tocando juntos e cantando "a vida só é boa pra quem não interfere / então eu sigo de boa e pego leve". É mais ou menos isso que eu espero pro próximo ano. Vou tentar pegar leve e seguir de boa e tentar recuperar pelo menos um pouco desse espírito. Sempre me lembro de uma temporada no Rio de Janeiro pouco antes de eu levar aquelas merdas daqueles tiros, eu voltando de manhã levemente embriagado e sozinho pro Hotel Marina. De subir pro café, pegar uma xícara e simplesmente sentar perto da janela e ficar um longo tempo olhando o mar. Naqueles dias eu sentia uma espécie de paz muito grande. Eu não me sinto merecedor de muita coisa mais, mas se eu conseguir alguns desses momentos de novo, vou me sentir feliz pra caralho. Então se vc quiser um carro do ano pro próximo ano, espero que vc consiga. Se quiser ganhar na loteria, torço por você. Eu fico com uma manhã nublada da janela do café do Hotel Marina do Rio de Janeiro. Eu já fui feliz e olha que eu até sabia disso.



Escrito por Mário Bortolotto às 12h56
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A ILHA DO MEL NÃO EXISTE - VAI POR MIM

Essa foto é exatamente dessa época - notem pelo nosso físico como estamos bem alimentados - o bebum que vos escreve, Angêli, Roberto e Celsinho.

Minha filha me escreveu pedindo uma grana pra passar alguns dias na Ilha do Mel com os amigos da Faculdade. Lembrei que quando tinha a idade dela, na verdade eu já era um pouco mais velho (tinha 22), também planejei ir à Ilha do Mel. Pra quem não sabe, a "Ilha do Mel" é uma ilha que fica no litoral paranaense. Antigamente era reduto de hippies por ser um lugar totalmente selvagem. Me parece que hoje já goza de uma estrutura melhor. Mas no meu tempo era bem "wild" mesmo. Eu tava morando numa república com mais três amigos. Dois não quiseram ir. Alegaram que se era pra passar fome, eles passavam em Londrina mesmo. Bem, uma questão de ponto de vista. Eu preferia passar fome na praia. Então fomos, eu e o Roberto que sempre topava todas. O Celsinho (tio da Rosi - minha primeira mulher - na época eu ainda não namorava com ela) também resolveu ir com a gente, só que ele foi de ônibus. O Celsinho era um pouco mais velho, com emprego fixo, estudante de jornalismo, enfim, era o nosso amigo "estranho". Mas ele também tava duro, se bem que perto de nós, mesmo com o pouco dinheiro que ele tinha, podia se sentir um magnata. O Roberto e eu fomos de carona nuns caminhões do Ceasa. A gente não tinha dinheiro nenhum. Quando chegamos lá é que ficamos sabendo que tinha que atravessar de balsa pra chegar na "Ilha do Mel". Não tinha como pagar a viagem de balsa pros três e eu acabei não conhecendo a "Ilha do Mel". Até hoje tenho dúvidas se ela existe. Acho que é um só um golpe muito bem sucedido das agências de turismo. Era época de carnaval e nós não tinhamos pra onde ir. Então sugeri que a gente fosse até Matinhos. Bem, é claro que ninguém tinha dinheiro pra pegar onibus até Matinhos. Então resolvemos andar. São muitos kms andando pela praia com aquela mochila pesada nas costas. Mas a gente tentou. Depois de uns 5 ou 6 Kms, o Celsinho resolveu pagar passagens de ônibus, mas aquela despesa extra ia nos deixar no osso. Mas ainda assim era melhor do que ficar andando pela praia com aquelas mochilas nas costas. Quando chegamos em Matinhos, tentamos achar algum lugar pra dormir. Então fizemos amizade com um segurança de um bar. Ele nos deixava dormir lá dentro depois que o bar fechasse. A  gente passava o dia andando pela praia, esfomeados. Tinha um super-mercado lá. O que dava pra fazer era entrar no mercado e ficar provando aquelas promoções deles. Bolachinhas, café, etc. Eu passava pela seção de hortifruti e ficava comendo uvas. E sempre roubava algum chocolate. Só o Celsinho não tinha coragem de roubar. Compreensível. O Celsinho tinha classe, diferentemente dos dois amigos vagabundos dele. Aí teve um dia que o Celsinho entrou no mercado com a gente. Fizemos todo o tour de sempre, provamos as bolachinhas, comemos as uvas, tomamos café, mas nesse dia eu não consegui roubar nada. Sempre que eu tentava, sacava que tinha um funcionário de olho. Saí lá de dentro frustrado. Então o Celsinho levantou a camisa mostrando uma barra de chocolate das maiores e disse: "Não se preocupa, Mário, hoje eu roubei". Grande Celsinho. Ele não tinha tanta "classe" assim, ou eu diria que na hora da necessidade, foda-se a classe. Nossa única refeição era de manhã quando o Celsinho com o dinheiro dele comprava pães e queijo e a gente fazia alguns sanduíches. E tinha uma banda de rock tocando num boteco na praia (vc lembra do nome da banda, Roberto?). Fizemos amizade com os caras da banda e eles conseguiam algumas bebidas na faixa pra nós. E foi assim que a passamos os dias lá na praia. Bundando durante o dia, indo de Matinhos a Caiobá e Guaratuba, fazendo a tour do super-mercado e vendo os nossos amigos tocando no boteco à noite. Aí quando o bar do nosso amigo segurança fechava, íamos dormir. Mas teve um dia que o bar não fechou. Era carnaval e o bar tava lotado. Tava com cara de que não ia fechar. E não ia mesmo. Ia ficar aberto até de manhã, foi o que o nosso amigo segurança nos explicou. Eu tava morrendo de sono e o bar não fechava, e aquela rapaziada alegre cantando marchas de carnaval e se embriagando. Aquilo era um inferno. Então ficamos os três frustrados e saímos andando sem rumo. Fiquei sabendo depois que o Roberto descolou uma garota e até transou lá na praia. Eu simplesmente subi na carroceria de uma perua que tava parada na rua e dormi lá dentro. Se a perua tivesse ido embora, tinha me levado e eu não ia acordar. No dia seguinte, resolvemos que tava na hora de voltar pra São Paulo. A gente ia estrear em poucos dias a peça "Feliz Natal, Charles Bukowski" no Festival de Presidente Prudente. Tinha uma carona prometida pra voltar com os motoristas dos caminhões do Ceasa. Só precisava chegar em Curitiba. O Celsinho pegou as últimas economias e pagou a passagem de ônibus pra nós até lá. Ele foi direto pra Londrina. Chegamos em Curitiba e nenhum de nós dois conhecia ninguém. Roberto e eu ficamos andando pela cidade como dois maltrapilhos com aquelas mochilas nas costas e totalmente esfomeados. Era terça-feira de carnaval e mesmo que Curitiba não tenha exatamente uma tradição carnavalesca, todas aquelas pessoas felizes na rua me causavam um mal estar du caralho. A gente precisava achar um lugar pra passar a noite. A carona tava prometida pro outro dia de manhã. Então fomos até o Teatro Guaíra, armamos umas cobertas no chão da rampa do teatro e dormimos lá mesmo (alguns anos depois contamos essa história pro diretor do Teatro Guaíra e o cara não botou fé), apesar do batuque ininterrupto. Mas nós não conseguimos dormir muito. Então resolvemos ir logo pro Ceasa. Pegamos nossas coisas e fomos andando passando por aquela multidão em festa como dois zumbis mal humorados. Eu lembro das pessoas pulando em nossa volta. Eu mal conseguia olhar pra eles. Olhava pro chão totalmente desconsolado. Éramos figuras totalmente inadequadas, personagens escalados no elenco errado. Saca aqueles filmes quando o cara tá triste pra caralho, perdeu a mulher que ama, tá sem grana e fudido e é noite de carnaval em New Orleans e tá todo mundo alegre na rua e o cara anda triste e as pessoas vão esbarrando nele? Era mais ou menos assim. Quando chegamos no Ceasa, falamos com os motoristas e fomos embora, um em cada caminhão. O motorista do meu caminhão parava naqueles restaurantes míticos de beira de estrada pra almoçar. Eu não tinha nenhum centavo. Então ficava lá fora do restaurante olhando os caras comendo aqueles bifes enormes. Parecia desenho do Fred Flinstone. Meu estomago tava na sola do pé. Por isso que quando eu vejo alguém olhando de fora a vitrine de um restaurante, me dá uma aflição muito grande. Acho que restaurantes deviam ser lugares fechados, sem vitrines. É horrível pra que não tem dinheiro pra comer. É televisão de cachorro, tão ligados, né? Fiquei andando entre os caminhões e roubei duas maçãs das caixas da carroceria de um caminhão. Foi tudo o que eu comi durante a viagem. Quando cheguei em Londrina, o motorista me largou na rodovia e fui andando até a casa da minha mãe. Eu não tinha dinheiro pro lotação. Foram pelo menos duas horas andando até em casa. Quando cheguei lá e minha mãe me viu, levou um susto. Eu tava cadavérico e ia morder aquela mesa se ela não me colocasse um prato de arroz na minha frente no minuto seguinte. Eu nem conseguia falar com ela. Ela disse que eu ia ter que esperar a janta, que não tinha nada pra comer, mas que ela ia preparar. Eu não tinha como esperar. Abri uma lata de biscoitos e comi tudo o que tinha lá dentro. Quando acabei é que consegui sorrir pra ela: "Tá tudo bem, Mãe, tá tudo muito bem. E a senhora, como é que tá?"

Minha filha não precisa passar por nada disso. Vou mandar uma grana pra ela. E vou pedir pra ela tirar fotos. Eu tenho que ter certeza que essa porra dessa ilha existe.   



Escrito por Mário Bortolotto às 17h42
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HOJE TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR - ÚLTIMO SHOW DO ANO

Foto de Tuca Borba

Nossa banda "Saco de Ratos" toca hoje em formação acústica.

Na verdade é parte da banda "Saco de Ratos". Eu diria que é o Trio "Baixa Estima" com exceção do Pagotto, é claro que nunca está com baixa estima.

Mário Bortolotto (voz) Diego Basanelli (violão), Fábio Pagotto (baixo) e participação de Flavinho Vajman (gaita)

O Club Noir fica na Rua Augusta, 331

Começa às 23h

O Couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 03h55
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