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Atire no Dramaturgo - um blog de Mário Bortolotto


SÁBADO (DIA 11 DE FEVEREIRO) TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nesse sábado (dia 11/02), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Club Noir (Rua Augusta, 331) a partir das 23h.

A gente toca em formato acústico.

A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Marcelo Watanabe e Ziggy (violões) Fábio Pagotto (baixo) 

O couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 11h17
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MINHA MÃE SEMPRE APAGAVA A LUZ NA HORA DE DORMIR

Ela me ligou perguntando onde é que eu tava. Ah, ela sabia que eu tava num bar, não sei por que perguntou. Mas ela queria saber qual bar que era. Eu sou um cara previsível. Ou eu tô num bar ou tô nos outros dois. E ela chegou e eu a vi atravessar a rua com aquela elegância que era só dela e entrar naquele bar mal afamado que não estava acostumado a esse tipo de frequência. Mas naquele tempo ela não se importava de entrar num bar não condizente com ela pra me encontrar. Mas naquele tempo eu nem tinha real noção de que aquele bar não era condizente com ela. Eu sempre imaginava que se era condizente comigo, podia ser condizente e agradável pra qualquer pessoa. Toda a minha inocência vagabunda me autorizava a pensar dessa forma arrogante. Eu já tava no meu quarto whisky e juro que fiquei feliz por ela estar ali, era um tipo de felicidade que eu não sabia explicar. Na verdade eu ainda não sei explicar. Eu não sei explicar momentos felizes. Quem sabe fazer isso é o Odair José. Sou um cara que se aproveita de qualquer nocaute, de qualquer chute na boca ou de qualquer música do Lupicínio Rodrigues. Mas não sou bom nesse negócio de me sentir feliz. Não sei direito o que fazer com isso. Minha calça não tem tantos bolsos assim. Talvez por isso eu me sentisse "feliz" (acho que posso chamar assim), mas me sentisse totalmente inadequado, tipo carta no endereço errado. Mas eu pedi o quinto whisky e fui ficando relaxado. E os amigos foram chegando e a mesa foi ficando cheia. E eu brinquei que ela era minha namorada e deitei minha cabeça em seus seios. Naquele tempo eu ainda me dava ao luxo de brincar. Eles não entendiam de onde eu havia tirado tanta intimidade. E na verdade nem eu entendia. Acho que já disse que entendo pouca coisa, né? Acho que o quinto whisky me deu essa permissão. Mas aí outra delas chegou. Naquele tempo sempre havia outra. E outra. Que chegou logo depois. E eu gostava de todas elas. E eu gostava muito de todas elas. E eu nunca quis magoar ninguém e eu não me sentia a vontade. Minha vaidade de moleque irresponsável até curtiu aquilo, minhas andanças noturnas, minha distancia do que eu chamava de lar e meu sarcasmo diante de minha própria vida. Enfim, tudo me dava a devida permissão para me sentir meio orgulhoso do momento. Isto é, se eu não percebesse o pino saltando da granada, um vietcongue riscando o fósforo depois de sorrir de maneira sinistra, um abutre levantando voo com aquele tipo de precisão malévola. "Deus salve a América", foi o que eu pensei quando levantei sem me despedir direito e atravessei a rua em direção a um bar que me inspirasse mais segurança mesmo com todos aqueles torresmos na estufa e toda a música sertaneja nos mais altos decibéis. Encostei num balcão e pedi o que eles chamam de whisky por ali. Fiquei imaginando ela atravessando a rua de volta pro seu carro com toda aquela elegância particular e rezei timidamente pra que tudo corresse bem pra ela e pras outras que eu gostava tanto e que eu me senti o maior canalha por levantar daquele jeito e fugir e pra mim e pra aquele sujeito que pedia outra música sertaneja e pro cara que se entupia de torresmo e pro amigo que foi pego no flagra pela namorada com outra no banheiro e pra namorada do amigo que pegou o namorado com outra no banheiro e pros meninos da aldeia que estava sendo incendiada naquele momento que já era outro dia em outro lugar do mundo e pros casais de namorados passeando no parque ou saindo do cinema. Naquele tempo eu esperava o dia amanhecer, uma nuca como um convite e um Jesus Cristo em Preto e Branco pendurado sobre a cabeceira da cama dela. Naquele tempo eu tinha pra onde voltar. Eu só preciso me acostumar aos novos tempos. Ou fazer o tempo voltar. Ainda não tenho a menor idéia pra onde é que eu vou. Mas eu tenho uma certa noção de como andar no escuro.



Escrito por Mário Bortolotto às 11h14
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SACO DE RATOS NO MIQUELINA BAR NESSA QUINTA-FEIRA

Nessa quinta-feira (dia 09/02), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Miquelina Bar (Rua Francisco Miquelina, 306) a partir das 21h30.

A gente toca em formato acústico.

A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Diego Basanelli (violões) Fábio Pagotto (baixo) e Rick Vechione (bateria)



Escrito por Mário Bortolotto às 21h02
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REZEM PRO VELHO ALMA

Esse papo pode parecer machista, e se acharem mesmo que é, tudo certo, mas na verdade eu acho que é exatamente o contrário. Pensem bem, no tempo dos meus pais as mulheres tinham funções muito bem definidas. Elas lavavam a roupa, faziam a comida e limpavam a casa enquanto os homens estavam fora trabalhando e garantindo o sustento (?) da casa. Então veio todo o lance da emancipação feminina. E a emancipação só foi possível (toda a luta das feministas a parte) porque inventaram a máquina de lavar por exemplo. Imaginem um mundo sem máquina de lavar roupa. A máquina de lavar libertou a mulher do tanque. A máquina de lavar libertou a minha mãe do tanque. Hoje uma jovem mulher que não viveu essa época pode até dizer: "que se foda. O homem deveria ir pro tanque". Bom, é fácil falar isso agora depois de toda a emancipação, mas não era assim no tempo dos nossos pais. Foi a máquina de lavar que começou tudo, podem ter certeza disso. E a mulher não precisou mais ir pro tanque e começou a ir pra outros lugares. E muitos homens se sentiram ameaçados por todo o tempo que a mulher estava ganhando. E a mulher começou a assumir lugares na sociedade que antes eram destinados apenas aos homens. E foi a máquina de lavar que ofereceu o start dessa possibilidade. Mas a verdade é que os homens (mesmo os mais machistas e que gostavam de ter as mulheres em lugares muito bem definidos até pra se sentirem mais seguros) deviam agradecer ao inventor da máquina de lavar. Pois com o advento dela os homens também não precisavam mais da mulher pra lavar a sua roupa. O homem moderno (quem diria que um dia eu me imaginaria sendo um "homem moderno") tem sua própria máquina de lavar e lava sua roupa. Tem o seu próprio micro-ondas e prepara sua comida. Alguns como eu tem até o seu foreman grill e prepara os seus bifes e sanduíches de queijo. Em resumo, o homem moderno já não precisa da mulher pra cuidar da sua vida. O homem moderno não precisa cuidar da vida da mulher. A emancipação na verdade veio pros dois e não apenas pra mulher. Então hoje em dia se um homem quiser ficar com uma mulher e vice-versa, é apenas por que os dois estão muito a fim de ficar juntos e não é mais um jogo de opressão e subserviencia. Eu, particularmente gosto muito disso. Eu não entendia muito bem porque a minha mãe tinha que ficar lavando roupa no tanque e gostei muito quando o meu pai comprou uma máquina de lavar pra ela, embora ela não tenha se adaptado muito bem àquela modernidade e ainda ficou muito tempo lavando a roupa no tanque. Ela colocava a roupa na máquina e depois tirava e esfregava tudo de novo no tanque. Ela achava que a máquina não fazia direito. Acho que ali também havia uma idéia de que a máquina estava roubando uma função dela. E ia ficar algo do tipo "se essa merda dessa máquina fizer o meu serviço, vão descobrir que eu não sirvo pra mais nada". Minha mãe demorou pra entender as mudanças do seu tempo e que elas poderiam na verdade ser benéficas pra ela. Enfim, o que eu quero dizer com tudo isso é que hoje me sinto muito bem com minha máquina de lavar, meu forno micro-ondas e meu foreman grill. Definitivamente não preciso de nenhuma mulher na minha vida. Paradoxalmente eu diria que preciso muito de mulher na minha vida, porque sem uma mulher me sinto pela metade. Mas eu preciso dela como alguém que também não precisa exatamente de mim. E os dois ainda assim insistem que é preciso ser "dois" sem funções definidas. Nenhuma invenção genial vai conseguir separar esses dois. Há sempre algo muito mais forte que une um homem e uma mulher. E foi a máquina de lavar que tornou possível que ambos tivessem a total compreensão disso. Então se há um santo pra quem devemos rezar todas as noites é esse tal de Alma J. Fischer que dizem que inventou a máquina de lavar. Ele é o Cara. Como diria Paula Toller, "os outros são os outros e só". Porra, consegui terminar toda essa elucubração maluca citando Kid Abelha. Sou mesmo um cara esquisito. Mas pelo menos hoje eu sei que uma mulher só vai ficar comigo se ela tiver muito a fim. Ela não precisa de mim pra porra nenhuma. E isso me proporciona uma sensação muito boa. Estamos na verdade todos livres. E vai dizer que isso não é du caralho? Valeu, Velho Alma.



Escrito por Mário Bortolotto às 12h42
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