HOJE NA GALERIA DA LU 
Escrito por Mário Bortolotto às 06h28
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HOJE E AMANHÃ LANÇO MEU NOVO LIVRO 
Escrito por Mário Bortolotto às 14h39
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HOJE TEM O ÚLTIMO SHOW DA SACO DE RATOS NO CAFÉ AURORA Pelo menos, por enquanto. É que em Agosto a gente não vai tocar lá porque nas quintas feiras vou estar em Brasília apresentando a peça "Êxtase". Talvez a gente volte em Setembro, mas ainda não tem nada certo. Então fica assim: hoje (quinta-feira) é o último show. No Café Aurora (Rua 13 de Maio, 112) a partir das 24h. Entrada : R$ 5. 
Foto : Juliana Baraúna ___________________________________________________________________ E NA SEXTA E NO SÁBADO LANÇO MEU NOVO LIVRO 
BLUES Como levar alguém que vai morrer pra ver o sol nascer como se fosse a primeira vez Como um garoto cruzando o Atlântico num barco a vela Como uma jovem mãe que perde o filho no parque de diversões Tipo esses filmes ruins que me fazem chorar como um idiota que perdeu a paz Como o garoto solitário que entra de penetra na festa de aniversário Como o filho cobrindo os pés do pai a beira da morte Como o viciado contando os dias que permanece limpo Como alguém que desistiu de ver o por do sol Como alguém fechando a tampa do piano Como alguém que você espera entrando pela porta Como alguém que você sempre esperou e que nunca vai entrar Como aquela mulher que não vai voltar Como aquelas desavenças que nunca deixamos pra lá Como aquelas coisas que julgávamos indispensáveis e que depois de muitos anos encontramos no vão do sofá _____________________________________________________ E TEM "TAPE" NO SATYROS 1 
Eu sei que tá dificil de ler nesse flyer. A parada é a seguinte. Hoje, quinta-feira às 21h no Teatro dos Satyros 1 (Praça Roosevelt, 214). E fica em cartaz sempre às quintas feiras. O texto é do Stephen Belber A Direção é minha E no elenco estão Pedro Guilherme, Marcelo Selingardi e Carolina Manica.
Escrito por Mário Bortolotto às 06h45
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 Hoje estréia peça nova do meu amigo Marcelo Paiva. Texto e Direção do Cara. Tive o privilégio de trabalhar com o Marcelo na primeira direção dele ("A Noite mais fria do ano"). O rapaz leva jeito. Agora é conferir a segunda direção dele. ___________________________________________________________________ E AMANHÃ TEM O ÚLTIMO SHOW DA SACO DE RATOS NO CAFÉ AURORA Pelo menos, por enquanto. É que em Agosto a gente não vai tocar lá porque nas quintas feiras vou estar em Brasília apresentando a peça "Êxtase". Talvez a gente volte em Setembro, mas ainda não tem nada certo. Então fica assim: amanhã (quinta-feira) é o último show. No Café Aurora (Rua 13 de Maio, 112) a partir das 24h. Entrada : R$ 5. 
Foto : Juliana Baraúna ___________________________________________________________________ E NA SEXTA E NO SÁBADO LANÇO MEU NOVO LIVRO 
UM LUGAR LEGAL PRA ESTAR (WHEN THE MUSIC STOPS) Ela me disse casualmenteque havia notado a mancha de sangue na minha camisa Disse a ela: Não se preocupe, não é nada Ela respondeu: Eu não tô preocupada Resmunguei: é melhor assim Achei que podia me divertir um pouco assistindo uma luta de boxe na tv Tirei a camisa manchada de sangue e joguei no tanque Ela vestiu uma micro-saia e saiu pra rua Abri uma cerveja e resolvi esperar Os ponteiros do relógio eram guilhotinas no meu pescoço Quando ela voltou, não falei nada Fiquei no escuro vendo ela se mexer deixando cair sua saia no caminho pro banheiro Deixou a luz acesa e ouvi o barulho não vou usar de eufemismos nesse momento pra dizer o que ela estava fazendo somos um casal com tempo de serviço nossa indiferença mútua provava isso meu enorme peso no sofá atestava isso Ela acendeu um cigarro no escuro da sala e a chama do isqueiro fez com que ela me notasse "é mais difícil do que você imagina", ela disse e o seu desprezo me acertou como um blefe de pôquer Ainda ficou um tempo olhando pra mim antes de vencer o orgulho e perguntar "O que era a mancha na sua camisa?" "Já disse. Não é nada. Não precisa se preocupar" Ela soltou um foda-se e foi pro quarto, deitou e ficou fumando olhando o teto Levantei e fui até o banheiro Cambaleei e tive que me apoiar na porta Abri o armário e peguei o mercúrio cromo ou você não sabia que a maioria das histórias de amor terminam com alguém limpando as feridas?
Escrito por Mário Bortolotto às 12h55
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BE BOP BABY Qual é a do trompetista que dança de um jeito engraçado que não sabe olhar o cardápio que sempre perde no jogo de dados e sempre canta a mulher errada Qual é a do trompetista que tem um gato gordo que expele perdigotos e não mede esforços pra ser expulso do clube Qual é a do trompetista que dichava uns bops e num golpe de sorte ganhou uma passagem pra Miami de uma loira peituda metida a madame Qual é a do Negão cheio de chinfra dando uns tecos no orelhão da esquina chamando gambé de “meu truta” passando na cara um bando de puta Qual é a do sacana escolado mandando um ácido passando um cagaço no meio da viagem jogando copos contra a parede Afinal qual é a dele? Qual é a do sujeito triste mamado de whisky chorando sozinho tocando esse jazzinho que só não me rasga o peito porque já descobri que sou assim torto e errado meio whisky batizado pó malhado de pirlimpimpim Pra vocês meus amores pra toda a vida e todo o sempre O pior de mim
Escrito por Mário Bortolotto às 13h43
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PEIXE CEGO NA SUPERFÍCIE AO ALCANCE DAS MÃOS Então eu pensei que o melhor mesmo era não entregar toda a aflição de passar madrugadas em claro. Era fazer de conta que isso de alguma maneira faz parte da vida como peixes ou gatos se enroscando nas pernas quando sentem o cheiro de peixes ou quando saímos na rua e todos os táxis e todas as horas que esperamos por táxis e todos os táxis que descem a Augusta e que não nos recolhem porque sempre estamos do lado errado da rua e toda vontade de simplesmente não existir e todos os peixes grandes e pequenos e todas as fotos e tudo o que nos remete a esse sentimento que atende por saudade e todos os gritos lá fora dessa gente desesperada como peixes no fundo do barco e todas as putas tristes e as que não se mostram tristes no primeiro contato mas que são como peixes de vida curta e essas putas todas as putas que eu sei que tem um céu só pra elas todas putas e todas as notícias que me chegam pela Internet pelo telefone pelos amigos pelos que certamente me odeiam e que fazem de conta que se interessam ou até que me amam há um tipo de cinismo peculiar nos inimigos mas eu nunca pensei em ter inimigos mas eles existem e me acenam quando passam em seus carros ouvindo música alto no carro e eles não podem ver que estou condenado por isso me protejo perto dela e todas as pizzas e todos os filmes e todos os projetos de ir pra Buenos Aires mas eu sei que sou o último na fila dos que ainda tem algum tipo de esperança e então eu me forço a me enganar a fazer de conta que sou um sujeito possível alguém merecedor de lembranças e de um verso bem escrito ou de uma mísera nota de rodapé alguém que ainda é capaz de acender todas as luzes da Augusta com um sorriso sincero alguém que não se matou aos 23 porque queria desmentir todas as previsões e horóscopos e bruxas da Rua Direita alguém que ainda continua tentando um jeito de se mostrar útil para alguém e merecedor de fato dessas noites em claro e dessa vida torta e dos peixes sempre os peixes como símbolos de esgotamento de entrega de rendição e eu vejo ela ir embora depois de me dar toda a esperança e todo o sentimento mais puro e todo o sexo e todo o estranhamento e todo o céu e abro os braços como um sinal de seja o que o melhor de todos quiser e volto sozinho pra casa e pro whisky e pros filmes e pros planos e pra última fatia de pizza fria e pra coca-cola e pra noite que eu testemunho da janela e pra balada triste que intercala as notas com sons de campainhas que acordam os peixes e que fazem me sentir o mais solitário dos caras que acreditam em peixes e lagoas que refletem minha cara de peixe condenado a escapar do aquário e eu lembro dos seus cabelos esparramados no travesseiro e então subitamente eu decido do alto de minha incompetencia de não saber nadar com os peixes que é chegada a hora de garotos não fazerem mais o trabalho de homens. ______________________________________________________________ E HOJE TEM JAM NA GALERIA 
Escrito por Mário Bortolotto às 06h49
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Na época do meu incidente, aliás, quando eu já tava me recuperando, a revista "Contigo" me encomendou um texto sobre o ocorrido. E eles foram muito bacanas comigo, já que tive total liberdade pra escrever do jeito que eu quisesse. E ainda me pagaram por isso. Fiquei lembrando desse texto hoje e da dificuldade que tive pra escrever, já que ainda estava com muitas dores. Não conseguia ficar muito tempo sentado e escrevendo porque as minhas costas doiam muito e só conseguia escrever com dois dedos de uma mão. Hoje é Domingo, acabei de chegar em casa e vou dormir. Mas antes queria postar esse texto porque fiquei pensando nele hoje e me lembrei como foi difícil escrever e lembrar tudo que aconteceu. É isso. Uma leitura pra um domingo enquanto as pessoas vão à feira e meus amigos ainda insistem em continuar no bar. Eu vou dormir. Aliás, tô mó a fim. EU DEVIA TER FICADO NO CAFÉ SOLÚVEL Não adianta porra nenhuma você ter plena consciência da nuvem negra pairando no ar nos últimos meses. Tudo dando literalmente errado em minha triste vida de bufão beatnick tentando ainda ostentar um ar de lord de sarjeta, o perdedor que vai embora do campo de cabeça erguida e de quebra ainda ganha um olhar furtivo e aparentemente apaixonado da garotinha de óculos fundo de garrafa e camiseta dos Smiths, com tão poucos atrativos aparentes que só lhe resta mesmo tímidos devaneios eróticos com o loser do mês, primeira página do calendário, tipo não tem pra ninguém, a taça do mundo é minha e a conta do boteco também. Era assim que eu me sentia nos últimos meses com a coisa toda se acentuando perigosamente nas últimas semanas com direito a um porre melancolicamente sozinho e o que é pior, em casa (prática essa que não admitia ter se me interrogassem sob um chá de porrada e eletricidade nos cornos até bem pouco tempo atrás). Nas últimas semanas até minha própria sombra já seria saudada por mim com fogos de artifício e teenleaders com coreografias tesudas. Não sou do tipo talhado pra cair nos braços da torcida, mas a maré de azar ancorada na minha nuca nos últimos meses já tava me parecendo uma brincadeira de mal gosto divina, ou como diria meu saudoso avô depois de uma talagada de cachaça: “Quando o urubu tá com azar, o chef francês é que é convidado pra preparar o jantar”. Mas eu andava por demais entorpecido pra prestar a necessária atenção aos sinais. Vinha me comportando de maneira displicentemente temerária, bebendo negligentemente feito um hooligan em final de campeonato ou um irlandês no dia do juízo final. Só faltava mesmo um escrotinho de merda me tirando de cuzão e vaticinando o meu fim. Naquela noite de sexta-feira, depois de ter operado a iluminação do espetáculo “Brutal” onde assino texto e direção, tava razoavelmente decidido a sair fora mais cedo, voltar pra minha kitchenete e pra minha garrafa de Jack, assobiar um punk rock e lamber minhas feridas. Mas aí me pagaram a primeira dose de whisky e todos os meus planos de uma noite tranqüila desceram pela minha garganta com o primeiro gole. Tava bebendo no próprio bar do Teatro dos Parlapatões e foi um amigo guitarrista quem colocou o copo na minha frente. Quando me dei conta, já estava criticando o por demais eclético repertório musical, gritando com amigos do outro lado do balcão e tinha como certo um final de noite completamente chapado caindo de coturnos na minha cama. Não foi bem assim. Eu percebi os caras entrando. Parte do que vou narrar aqui extraí de uma nebulosa de álcool e da minha memória totalmente comprometida e que não merece nenhum crédito, mas devo atestar que reconstituí os fatos a partir de depoimentos e confidências de amigos que estavam no local durante o trágico (pelo menos pra mim) ocorrido, então creio que no atual estágio da minha vida, tirava de letra qualquer detector de mentiras. As portas estavam abaixadas deixando o bar totalmente incomunicável com a rua lá fora. Não sei onde é que tava o segurança. A Fernanda (a atriz Fernanda D´Umbra) e o Reinaldo (o escritor Reinaldo Moraes) haviam acabado de entrar no bar. As portas foram levantadas pra eles, possivelmente pelo segurança. Os quatro caras entraram na cola. Dois deles renderam o segurança e o levaram pro andar de cima. Os outros dois entraram no bar e tocaram o terror. Eles se colocaram de maneira acintosamente autoritária, berrando pra que todos deitassem no chão, deram um empurrão na Manu (a atriz Maria Manoela) e uma coronhada na Guta (a atriz Guta Ruiz). Eu me neguei a deitar no chão. O cara com a arma veio pelas minhas costas e me acertou uma violenta coronhada na cabeça. Eu devia ter desmaiado com aquela porrada. Ia evitar todos os dissabores futuros, mas infelizmente sou mesmo um notório cabeça dura e não foi o que aconteceu. Levantei surpreso e indignado, olhei pro cara que tava brandindo o revólver e o inquiri: “Qual é, cara? Cê ta louco?” Ele apontou a arma e ameaçou atirar (isso tudo eu vi um mês depois pelo sistema de câmera interna de segurança do bar – tá tudo gravado). Não tenho nenhuma intenção de tirar uma de destemido ou de fodão, mesmo porque não me vejo assim. Sempre fui um cara cuidadoso e rego meus medos todas as manhãs, mas ao mesmo tempo quando sou desafiado, passo a ser irresponsável e inconseqüente. E isso que eu saiba não é sinônimo de fodão. E o cara na sua pose de bad-gangsta boy tirando uma de “eu sou mais que você porque tenho uma arma na mão” conseguiu me deixar descontrolado. Então eu gritei “Atira, filho da puta” e fui pra cima dele. Acho que ele não acreditou de prima no que tava acontecendo, já que ainda assim, eu consegui derrubá-lo no chão. E foi caído que ele disparou os tiros depois de ter levado um chute do meu amigo Carcarah (o ilustrador e ator Carlos Carah)que levou três tiros na perna. Ele acertou o primeiro tiro no meu braço. A bala entrou e saiu. Eu continuei andando. Quando levei o segundo no coração, foi um baque violento. Uma espécie de patada de elefante no peito. As pessoas tavam gritando. No chão, levei o terceiro de uma bala que se encostou atrevida na minha coluna cervical. Mais um sopro e eu não andava mais. Tava apagando quando ouvi e ainda vi o Carcarah do meu lado segurando a perna atingida e gritando: “Acertaram o Mário”. Resumindo o estrago, dos tiros desferidos pelo assaltante caído no chão, três foram pra minha carcaça, outros três foram parar na perna do Carcarah, e alguns no teto do bar. Devem estar lá até hoje e devem ficar eternamente como aqueles corações talhados numa arvore com canivete de escoteiro por casais de namorados. Fiquei sabendo ainda que o sujeito tava indo embora e resolveu voltar pra acabar o serviço e dar o tiro fatal. Devia estar puto por terem encontrado um irresponsável suficientemente louco capaz de acabar com a noitada deles. Mas aí o meu anjo da guarda já tava acordado e refeito do porre da noite anterior, e devo dizer, meu anjo é um bebum descuidado que sempre dorme em serviço, mas quando acorda, não tem pra ninguém. Deu um tapa de leve na mão do cara e o tiro só pegou de raspão. Os quatro caras, tendo seus intentos frustrados, fugiram. Meus amigos Basa (guitarrista e companheiro de noitadas de bilhar) e Ayalla (nosso roadie internacional importado do Paraguai) tavam chegando no bar quando viram os caras saírem correndo. Imaginaram que alguma merda tinha acontecido, só não imaginavam o tamanho. Quando entraram viram a Fernanda com minha cabeça no colo e tentando falar comigo que apenas repetia que ia morrer. Ela retrucava dizendo que isso não ia acontecer. Tentaram convencer alguns policiais a me levar imediatamente pro hospital. Eles contra argumentaram dizendo que deviam esperar a ambulância. Fernanda manteve a atitude firme e praticamente obrigou os caras a me levar no próprio Corsinha da polícia. O Basa e o Ayalla me colocaram no porta-malas e a Fernanda e o Brum (meu amigo Fábio Brum, guitarrista da nossa banda “Saco de Ratos”) foram junto comigo, sentados no banco de trás. A pronta atitude deles me salvou a vida já que os médicos me garantiram que se tivesse chegado dez minutos depois, certamente não teria agüentado. Fiquei dois dias em coma após uma cirurgia de nove horas. Lá fora meus amigos queridos e pessoas que sequer me conheciam pessoalmente, mas que de alguma maneira se acreditavam ligados a mim pelo meu trabalho, estavam reunidos em vigília pela minha recuperação. Se tem algo que me deixa realmente emocionado nessa história toda, é quando ouço relatos sobre esses dois dias e sobre a corrente de sincera solidariedade que se formou lá fora. Sempre que ouço relatos desses dois dias, me dá um nó na garganta e um aperto no estomago difícil de explicar e de conter. Se existe um verdadeiro e bom motivo pra eu ainda estar vivo é o fato de poder desfrutar por mais um tempo da companhia dessa rapaziada. O que aconteceu foi descrito pelos próprios médicos como um milagre. Dois dias depois, estava acordando na UTI da Santa Casa e vi ao lado da minha cama, minha ex-mulher Christine (e mãe de minha única filha Isabela) que tava sorrindo pra mim ao lado da minha irmã Eliane que me olhava num misto de consternação e alívio. Olhei pra elas, percebi que tava de volta e voltei a dormir logo em seguida. Imaginei que se o quadro clínico fosse dos piores, a Chris não estaria sorrindo de maneira tão franca. De qualquer maneira, as notícias, boas ou terríveis, podiam esperar mais um pouco. Teve uma vez que eu caí de uma janela e perdi temporariamente a noção das coisas. Me levaram de ambulância prum hospital e me deram uma injeção me prevenindo de que eu deveria ficar em observação. Eu estava em São Paulo, morando no Brooklin e era casado com a Fernanda. Lembro que ficava perguntando pra ela o que eu estava fazendo naquele hospital em Londrina. Ela tentou me explicar que eu estava em SP, mas a convenci de que a gente devia fugir dali o quanto antes. Quando a enfermeira vacilou, me amparei no ombro da Fernanda e pedi enfaticamente a ela pra me levar até um táxi. Parecia que eu tinha passado por uma centrifuga de desenho animado, mas me senti feliz quando consegui fugir daquela ante-sala do inferno. E era assim que eu me sentia no hospital, por mais gentis que se mostrassem os médicos e enfermeiras. Imaginava o meu fígado arruinado, mas os médicos ainda me garantiram excelentes condições para um órgão tão maltratado por mais de 40 anos. Quebrei meu braço esquerdo e tive que sofrer outra cirurgia de três horas onde colocaram uma placa de titânio semi-assustadora com uma dúzia de parafusos dignos da criação imortal de Mary Shelley. Perdi meus coturnos e uma ótima camiseta da Jack Daniels, meu celular, o movimento pleno de minha mão esquerda (espero que temporariamente) e algumas crenças que ainda me restavam. Mas ainda estava por aqui com plenas condições de apitar a final de um campeonato de futebol de botão, convenhamos, é bem mais que grande parte da tripulação do Titanic conseguiu. Passei dois dias sem existir e confesso que não é nada demais. Um sonho tranqüilo como um mergulho em Fernando de Noronha com alguns golfinhos frescos fazendo às vezes de entourage marinha, lá onde todas as noites parecem iguais, mas o DJ ostenta um surpreendente bom gosto e uma loura fatal saída extraordinariamente de um filme noir ronrona suavemente no seu ouvido. Se for só isso mesmo sem aqueles cupinchas de belzebu ostentando fálicos tridentes, por mim tá tudo bem. Providencio o passaporte e espero a momento máximo de nossa inevitabilidade relendo minha coleção de Ken Parker. Porque eu não me lembro de ter rezado pedindo por uma nova chance. Sequer preenchi o requerimento em duas vias que os trâmites legais costumam exigir evitando o inevitável despejo, mas já que eu acordei e vi minha ex-mulher e minha irmã sorrindo do lado da cama, percebi que fui embora sem fechar a conta do boteco e o dono dessa espelunca vagabunda não é muito chegado em caloteiros. Agora faço de conta que essa Eisenbahn é um elixir de eternidade, brindo a duas ou três almas puras que sei que ainda andam por aí e coloco o pó na cafeteira. Já que fiquei por aqui vou evitar qualquer calmante fitoterápico e fazer dessa minha noite uma daquelas recepções onde o cicerone não economiza no bufê. - Mário Bortolotto -
Escrito por Mário Bortolotto às 06h34
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