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Atire no Dramaturgo - um blog de Mário Bortolotto


A DIFICULDADE DE IR ATÉ A ESQUINA E ESSE GOSTO DE PASSPORT PRO INFERNO

A DIFICULDADE DE IR ATÉ A ESQUINA E ESSE GOSTO DE PASSPORT PRO INFERNO

Entendam que é difícil pra mim. O telefone toca, mas eu não quero levantar. Deixei "Stranded" do Van Morrison no repeat. Tem uma igreja medieval em cima da minha barriga e algumas orações que aprendi com meus avós na minha cabeça, mas parece que elas não me valem nada. Ainda sinto o gosto do Passport pro inferno. Preciso parar de ir pro Estrela da Roosevelt (o último refúgio que nem sempre nos recebe muito bem). Vou jantar com o Lobo e com a Mariana. Bons presságios. Acho que vou ganhar um Jameson hoje. Um Green Label na minha casa e eu bebendo Passport pro inferno. Eu voltei pro bar hoje. Eu sempre volto pro bar. Os amigos não acreditam quando me vêem entrando pela porta, de novo. Noite boa a de ontem. Grande show. Divertido pra caralho. Emocionante quando tinha que ser e divertido na hora certa. Os amigos se divertindo na platéia. E eu voltei pro bar. Quando ninguém mais acreditava que eu pudesse voltar. Eu tinha tudo pra não voltar, né? Mas eu sempre volto. Hoje recebo mensagens de outros amigos. Mas não quero levantar. Já ouviram "This love of mine" do Van Morrison?

HOJE TEM "BRUTAL"

É a penúltima apresentação e a última com a atriz Maria Manoela. Na semana que vem ela viaja e vai ser substituída pela atriz Helena Cerello. Então quem quiser ver ainda com a Manu, é a última oportunidade.

E NO DOMINGO

Tem nossa tradicional jam com churrasco comemorando o aniversário de nossa grande amiga Ester Laccava. Vai ser du caralho.

A Coletivo Galeria fica na Rua dos Pinheiros, 493 - Entrada Free - Começa às 17 h e termina às 22h por causa da lei psiu.



Escrito por Mário Bortolotto às 18h26
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SACO DE RATOS NO CAFÉ AURORA E COMENTS LIBERADOS E POEMAS QUE ME EMOCIONAM E A VIDA QUE A GENTE BEBE

Tô escrevendo do hotel em Lorena. Quente pra caralho. Fazer a peça de terno e gravata foi foda. Mas a apresentação foi muito maneira. As possibilidades de bares abertos por aqui numa quarta-feira me parecem escassas. Então vou dormir porque amanhã o dia vai ser hard. Ainda bem que a Van é maneira. Paulinha e eu viemos assistindo "Budapeste" enquanto o Alex e a Aninha dormiam solenemente no banco da frente. Pra volta, deve rolar o "Jean Charles". Vamos ver qual é. Tenho reunião às 15h, leitura às 18h e show às 23h30. Aí é sessão de terapia rock and roll (a melhor que existe) com os meus amigos da "Saco de Ratos" e com a platéia que aparece por lá. Vai ser foda.

Foto : Luiz Felipe Ogro

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E NO RIO DE JANEIRO - ESTRÉIA HOJE

Pô, queria ver isso!

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OS COMENTS TÃO LIBERADOS

Vários amigos tavam reclamando que não conseguiam comentar aqui. Então resolvi facilitar a bagaça retirando a necessidade de cadastro, etc. Agora qualquer um já pode comentar livremente aqui sem chateação. É uma via de duas mãos, é claro. Os babacas anônimos que escrevem aqui só pra me ofender já voltaram. Tá tudo certo. Eu simplesmente não aprovo os comentários. A rapaziada bacana vale a pena.

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E falando em rapaziada que vale a pena, a Adriana Godoy lá de BH (que sempre comenta aqui e que eu conheci pessoalmente há pouco tempo quando esteve por aqui assistindo "Brutal") escreveu um poema pra mim. Eu gostei. Fiquei lisonjeado, aliás. E gostei principalmente da parte dos anjos velando. Tô precisando disso. Ela escreveu assim:

Bortolotto, estava dando aula  agora e o assunto era escrever um poema sobre alguém, tipo uma biografia. Então, enquanto os alunos estavm escrevendo, sem querer fiz isso sobre você. Não me leve a mal, mas saiu de um fõlego só.  Sei que não tá legal, meio didático, não é muito meu jeito, mas resolvi te enviar assim mesmo. Beijo.

meu querido outsider

ele vem de coturnos com os cadarços desamarrados
a camisa grande com as mangas maiores que os braços
uma camiseta por baixo
um quase sorriso e um jeito tímido e forte

o dia é feito de ressacas e de um computador
quando calor demais liga o ventilador
e as ideias se espalham em textos únicos e mágicos

a noite chega e ele sai à caça de bebidas e de possíveis amigos
ou joga bilhar com homens e mulheres
e não duvida que pode ter brigas e pode brigar
mas agora prefere desativar bombas
e ficar mais leve um pouco

o rock e o blues estão em suas veias
como as palavras para um poeta
a voz rouca combina tão bem com o uísque que toma
e com a música que canta
que se tornam indissolúveis

escreve como quem enxerga os subterrâneos humanos
nos seus mais obscuros infernos
e deixa  a solução  na alma de cada um
encena e traduz a angústia de diversos personagens
mas traz em si as angústias da humanidade

encanta por ter um coração de menino
por gostar de lutas e de filmes b
de revista de mulher pelada
de comer coxinha de madrugada

de ver as séries na tevê

de ouvir mp3 num canto qualquer e ficar só

de conversar com os mendigos e perdidos da cidade
enquanto estudantes estão indo pra escola

ver o sol nascer pode lhe dizer
pra voltar pra sua quitinete
e tentar dormir o que a noite não deixou

então sonha, menino, tá tudo certo

no meio do caminho pode ter um bar

e mulheres  e amigos que te esperam

os anjos te velem  e digam amém

              (Adriana Godoy)

Valeu, Adriana, que os anjos cuidem mesmo de todos nós. E que eles sejam mais bacanas que os fdp do "Supernatural", né?



Escrito por Mário Bortolotto às 00h42
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O BAR SEMPRE NO CAMINHO

O BAR SEMPRE NO CAMINHO

Há alguns amigos que não encontro todo dia. Mas quando os encontro, me faz muito bem. Ontem encontrei um deles. Gosto muito de encontrá-lo porque a gente pergunta: "E aí? Como é que tá?" Ele responde: "Tô ótimo. Melhor impossível. Tá tudo maravilhoso". Por mais que eu esteja triste pra caralho, me faz muito bem encontrar esse amigo.

Dia desses o Carcarah tava jogando bilhar até às 8 da manhã com a gente. E ele tinha que viajar pra Monte Alto pra uma apresentação. A Van ia sair às 9. Aí o Guizé intimou: "Carcarah, vamos pro Ecléticos Bar"

"Cê tá louco. Que porra de Eclético´s? Tenho que pegar a Van às 9. Tô indo pra Monte Alto".

"Pois é. É caminho".

Pra esses meus amigos, o Bar tá sempre no caminho. Não tive como não parar a jogada e rir.

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Ela me ligou dizendo que precisava de mim. Gosto quando as pessoas que gosto muito precisam de mim pra alguma coisa. Ela tinha passado um pouco da conta e só queria que eu ficasse perto dela. Ela só não queria ficar sozinha. Disse pra ela vir aqui pra casa. Então acordei, joguei uma água no rosto e a recebi. A gente bebeu Green Label sentados no chão e falamos sobre uma pá de assuntos que a gente gosta de conversar. Ela foi ficando tranquila. Aí a gente simplesmente deitou e dormiu. De um jeito suave, como deve ser. Quando acordei hoje de manhã com o despertador do celular e vi que ela tava bem, me senti com algumas moedas pesando menos no bolso da bermuda, algumas contas a menos na mercearia, alguns escombros menos no porão, alguns arranhões a menos na vidraça. Não há nada que me perturbe mais no dia de hoje. Ainda somos capazes de usar o mesmo banheiro, mesmo que a porta mal esteja se aguentando nas dobradiças.

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Agora vou pra Lorena. Vamos apresentar hoje por lá a peça "A noite mais fria do ano" no TEATRO SÃOJOAQUIM, dentro da UNISAL às 20h.

Texto e Direção : Marcelo Rubens Paiva

Co-Direção : Fernanda D´Umbra

Elenco : Alex Gruli, Hugo Possolo, Mário Bortolotto e Paula Cohen.

Segundo as previsões do meu vidente de plantão, hoje Paulinha e eu vamos beber em Lorena. Gruli e Hugo devem dormir cedo. Pago muito bem meu vidente pra ele fazer previsões imprevisiveis como essa.

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E AMANHÃ - QUINTA-FEIRA

Foto : Luiz Felipe Ogro



Escrito por Mário Bortolotto às 02h48
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NOSSO INSTINTO PRIMITIVO É CAIR FORA, MAS SE EU FICAR VOU TER QUE ENCARAR E EU POSSO DIZER COM CONHECIMENTO DE CAUSA: O MAL SOBE PELAS PAREDES E NÃO DERRAPA

NOSSO INSTINTO PRIMITIVO É CAIR FORA, MAS SE EU FICAR VOU TER QUE ENCARAR E EU POSSO DIZER COM CONHECIMENTO DE CAUSA: O MAL SOBE PELAS PAREDES E NÃO DERRAPA

"A gente pode só dormir?"

"Eu vou te dizer uma coisa, Garota. Acho até melhor você sentar. Essa revelação pode te deixar chocada, mas enfim...vou te falar: eu gosto pra caralho de dormir".

Ajustei o ventilador em direção à cama. Essas noites tem sido quentes pra caralho. Então volto cedo pra casa, porque sempre tô com muito sono. Se fico no bar, logo procuro o ombro de alguma amiga pra descansar. Prefiro os peitos, é claro, mas quando não tenho muita intimidade, fico ali pelos ombros mesmo. Nessas horas sempre penso: "Onde é que tá a Lulu?"

Então porque não consigo ficar no bar sem bater um puta sono, volto pra casa. Deito, mas também não consigo dormir. Meu sono é um coito interrompido. No melhor do sonho, eu desperto, sempre. Foda-se. Por mim, podia até ser um pesadelo, desde que eu conseguisse dormir 6 horas seguidas. Durmo um pouco, quando acordo vejo que se passou apenas meia-hora. Durmo de novo mais meia hora. Dormir à prestação te deixa mais cansado do que passar a noite em claro. Por isso eu sempre tô cansado. E não foi diferente. Ajustei o ventilador em direção à cama, fixo, bem em cima de nós. Ela tava de shortinho jeans e com as pernas encolhidas. Achei a imagem bonita. Não há nada mais bonito do que uma linda garota dormindo na sua cama. Tinha um tempo que eu levava ela pra casa (me perdoem o meu jeito desorientado de escrever, mas acho que dá pra entender que nem sempre tô falando da mesma mulher, né?), transava e voltava pro bar. Eu tenho essa mania de voltar pro bar. Ela não se importava, ou pelo menos não parecia se importar na época. Ficava dormindo. Quando eu voltava completamente chapado, achava poético pra caramba ela dormindo só de calcinha, de bruços e eu pensava: "Sou mesmo um cara de sorte". Mas sorte é algo que não dura a vida inteira. Não descobri isso no poker. Na verdade quando jogava truco no seminário, comecei a suspeitar disso. E só tive certeza quando ela depois de uma partida de volei, não me sorriu do mesmo jeito que havia sorrido um dia antes quando eu a vi na platéia enquanto tocava algumas versões vagabundas de músicas do Raul Seixas (Ps ou nota de escritor desorientado: isso foi há 32 anos, exatamente no dia dessa foto aí, e eu lembro com detalhes anatômicos). Então agora deve ter outro cara com mais sorte do que eu olhando ela dormir de bruços em sua cama. Acordei várias vezes durante à noite, andei pela kitchenete, fui até a janela, escancarei a janela, tinha gente gritando lá embaixo, algum tipo de demônio no encalço de seu novo recipiente, sei lá. Se você não assiste "Supernatural" não vai entender. E ela continuava dormindo, tranquila. Quando a manhã veio, eu tava no computador escrevendo, um surto de euforia literária. Escrevi compulsivamente enquanto ouvia Van Morrison. Sempre fico lembrando do Cabeça cantando "Wild Night" do velho Van à capela no Teatro X no final de um de nossos shows. Quando saí do transe, ela tava andando pela kitchenete, descalça, fazendo café, me trazendo uma xícara, sentando na beirada da cama e falando sobre ex-maridos, internamento à força pela família, poesia com um barbeiro no meio da rua, essas coisas que fazem a vida ser única e vigorosa. E então como uma artesã de sua própria existencia, ela foi desfiando suas histórias e prestando a mó atenção nas que eu contava pra ela enquanto Van Morrison cantava "When that Evening Sun Goes Down". Uma linda garota sentada na beirada da cama rindo das minhas observações que eu até acho pertinentes às vezes como no momento que falei pra ela: "Um amigo tava brigando com a namorada. Em determinado momento ele disse que ela tinha razão. Gritei com ele. NÃO, VOCÊ NÃO PODE DIZER ISSO. RAZÃO É A ÚNICA COISA QUE NOS SOBRA". E é só uma frase de efeito, é claro. Eu mesmo numas de não levar a discussão adiante, já me peguei dizendo: "Você tá certa!" e é claro que isso não vai adiantar porra nenhuma se ela tiver realmente a fim de discutir. Ela me explicou que o lance é hormonal, alguém vai ter que pagar a conta e geralmente é quem está mais próximo. Disse que entendia e que várias vezes quando percebi que ia rolar aquele cheiro de napalm pela manhã que o Robert Duvall adora eu já dava um jeito de me refugiar em algum bar fora da lista dos meus prediletos. Algum bar que ela não conhecia e que por isso, não ia conseguir me achar. A Cíntia me perguntou ontem no jantar: "Você escreve mais personagens masculinos, né?" Citei alguns personagens femininos que acho importantes na minha dramaturgia e depois concluí pra ela que é mais fácil escrever sobre homens. Disse: "A mentalidade masculina eu conheço. A feminina? Só investigo". Ela retrucou comigo dizendo que os homens são tão complexos quanto as mulheres. Disse pra ela: "Nós somos óbvios pra caralho. Vê só os caras que foram pra cima da menina da Uniban. São óbvios. Vêem uma garota gostosa, e olha que ela nem é tão gostosa assim, mas enfim...naquele micro vestido, ela bem que fica, liga só, é como colocar uma garota de calça larga de sarja num desfile de burkas. Ela vai ser a mó gostosa. Mas voltando ao assunto da obviedade. Os caras ficaram com tesão e ficaram agressivos. Sempre que a gente vê uma garota gostosa na rua, dá vontade de agarrar. Nós somos assim". Aí a Neca falou: "Quer dizer então que você tá justificando a atitude dos caras?" Respondi: "Não é isso que eu tô falando. O que eu tô dizendo é que esse é o nosso instinto animal primitivo. O cara com uma clava gritando "mightor" e arrastando a mulher pelos cabelos. Hoje em dia nós aprendemos a ser razoavelmente civilizados e sabemos que não devemos agir dessa maneira. É a tal da evolução, né? Talvez essa evolução não tenha chegado na Uniban, sei lá. E só lembrar do gráfico de Darwin. A gente anda sobre dois pés e com a coluna ereta, torce pra algum time de futebol de nossa preferência, escolhe os filmes que quer comprar no camelô e temos o tal do livre arbítrio amparado em nossa inteligência e capacidade de discernimento. Se a gente errar a mão, vamos parar numa cadeia tendo que tomar banho preocupados em não deixar cair o sabonete. A gente aprendeu a não ceder à nossos instintos animais, por isso consigo dormir do lado de uma linda garota de shortinho jeans e não fazer absolutamente nada, mas os instintos estão todos lá, refreaveis, é claro, mas óbvios demais". Disse mais ou menos isso. Mais tarde no "The Edge" tentava explicar pra Aninha F. porque não podia ficar com o gato dela (antes havia explicado que era impossível comparar Beatles com Kinks, até porque os Beatles são antes e depois de Revolver. The Kinks é apenas antes. E também demonstrei interesse em viajar num cruzeiro pelo litoral brasileiro durante uma semana com a Aninha atacando de DJ. Não me pareceu má idéia apesar da Simone rindo da minha cara. As pessoas fazem uma imagem adulterada de minha bebum pessoa. Tava comendo uma maçã no sábado e a Vanessa Bumagny me inquiriu perplexa: "Marião, você comendo maçã?" Respondi: "Vocês acham mesmo que eu bebo Jack Daniels o dia inteiro? Eu gosto de maçã e de abacaxi e de melancia"). Mas enfim, o gato da Aninha me parece um gato bacana (espero que ele ainda não esteja viciado em música eletrônica), estiloso e do tipo que não vai ficar arranhando minha perna quando eu estiver deitado na rede lendo "Foolkiller", e eu nem me importaria de dividir o leite da geladeira com ele, mas é que eu sou o tipo de cara que mora sozinho, e viaja um bocado. Ele ia acabar gostando de mim. Sou um cara razoavelmente legal. E ele ia sentir a minha falta quando eu não estivesse por lá e talvez na sua cabecinha de gato ele acreditasse que eu não ia voltar. E não há quase nada pior do que você imaginar que alguém que você gosta muito não vai voltar. Quando tava saindo do "The Edge", a música que o Tatá Aeroplano tava tocando me lembrou de outra Ana e uma manhã embriagada. Ela voltando pra sua filha dirigindo o carro, essa música tocando no repeat e minha mão entre as pernas dela. As mulheres. E nossos instintos mais primitivos. Van Morrison agora canta "Moonshine Whiskey" e eu estou reabastecendo o meu MP3. Ei, Melissa, se quiser, me traz o seu qualquer hora dessas e eu vou turbinar com o velho Van. Você vai gostar. Se tem uma coisa que eu sempre soube, foi escolher música. Acho que sei mais duas ou três coisas, mas não me vem à cabeça agora.

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E aliás, falando em boa música, saquem só essa dica do Bruno Bandido. O nome dele é Seasick Steve. É um sujeito com 67 anos que só há pouco tempo começou a ficar conhecido. Tem toda uma lenda dele que circula por aí. Do tipo que levava porrada do pai desde criança, que fugiu de casa, andou em trens de carga e fez todos os trampos mais malucos, tipo o cara criou uma lenda pra ele, como já fizeram Bob Dylan e Tom Waits, só pra citar dois grandes mitômanos que me vem à mente de imediato. Eu nem diria "mitômanos". Eu usaria a expressão do meu amigo Reinaldo Moraes quando perguntaram pra ele se tudo o que ele escrevia tinha acontecido de fato. Ele então respondeu que o que fazia era "conficção". Perfeito. A verdade é que fiquei fã do cara. Disse pro Bruno que ele é o Neil Young do Blues, a mesma energia e carisma num cara com mais de 60 anos. Um velho herói como seria o meu Elvis Presley de fundo de boteco do conto que escrevi em "Gutemberg Blues". O Pereio me dizendo ontem à noite: "Vou dormir". E o Palmério retrucando: "Mas como assim? Você vai dormir antes de mim? Isso nunca acontece." E ele falando calmamente: "É que hoje eu tô melancólico". Um ZZ Top solitário e com alta carga de impetuosidade musical. Uma espécie de velho rato de sarjeta dizendo : "Ei, Man, desce aqui pro esgoto e eu vou te mostrar o tipo de birita que eu costumava tomar nos hard times". O Cara é foda. Fábio Brum e Carcarah, talvez vocês já conheçam o Homem, mas se ainda não conhecem, digam pra mim: O que acharam?

CLICA AQUI PRA TER UMA IDÉIA: http://www.youtube.com/watch?v=R-XkyMfh8xA

E AQUI : http://www.youtube.com/watch?v=pNoPNC3ebYQ

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E na quinta-feira tem show da nossa banda "Saco de Ratos" no Café Aurora. Viajo amanhã pra Lorena pra apresentar a peça "A Noite mais fria do ano" por lá. Volto na quinta pra leitura do texto "Ecstasy" do Mike Leigh que deve estrear em Março. E depois vou direto pro show no Aurora. Minha sessão de terapia (minha e do Rick, né? Ou você acha que alguém desce a mão na batera daquela forma impunemente?). Amigos, vamos beber algumas hoje. Já marquei com o Nelsinho.

O desenho da Ratazana é do Mutarelli e a arte do flyer é do Carcarah que ontem mandou uma seleção impecável de rock no "The Edge" (aniversário do Eldo)

 



Escrito por Mário Bortolotto às 08h50
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HOJE

Meus amigos Jairo Matos e Paulo César Pereio vão fazer uma leitura do meu texto "Efeito Urtigão"

No Mistral Bar Bistrô- Hotel Linson

Rua Augusta,440 a partir da 20:00

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E hoje é também aniversário do meu amigo Eldo. Parabéns pra ele.



Escrito por Mário Bortolotto às 16h46
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RECEITA PARA NOVOS E PRETENSOS ENCENADORES DOS MEUS TEXTOS

"Fighting" é o que eu gostaria que "Nossa vida não cabe num Opala" tivesse sido. Já cansei de falar sobre o filme adaptado da minha peça. Que é um filme fraco a começar pelo roteiro e com pouca compreensão do universo abordado. Tudo o que o Bruno Bandido sacou da minha peça "Uma pilha de pratos na cozinha" por exemplo, é exatamente o contrário do que foi entendido pelas pessoas responsáveis pelo filme "Nossa vida não cabe num Opala", a começar pelo título que originalmente é "Nossa vida não vale um Chevrolet". Exatamente o contrário do que queria dizer. Então dia desses assisti o ótimo filme "Fighting" (Veia de Lutador) do Diretor e roteirista Dito Montiel, de quem eu já tinha visto "Santos e Demônios" e que aliás, também gostei muito. É um filme com uma história simples. Rapaz (Channing Tatum que também trabalhou em "Santos e Demônios") vem do interior para Nova York com um passado marcado por desentendimentos com o pai, tenta ganhar a vida vendendo produtos ilegais na rua, se mete em encrenca e conhece o golpista Harvey (Terrence Howard) que percebe o talento do rapaz em brigas de rua e o coloca no circuito das lutas ilegais. Logo o rapaz se torna uma estrela no meio enfrentando desde lutadores profissionais até fodões de artes marciais. É claro que tem também o envolvimento do rapaz com uma garota que trabalha em uma boate, os fantasmas de seu passado, etc. Na verdade são todos perdedores natos que vislumbram uma possibilidade se dar bem em um mundo onde não há mais que uma chance pra que isso aconteça. Reparem no personagem "Harvey". Simplesmente enternecedor. Quando escrevi "Nossa Vida não vale um Chevrolet" que acabou de ter leitura no México com ótima recepção de público segundo a Lygia Cortez que me mandou um e-mail ontem, foi com o intuíto de escrever sobre esses personagens que foram obviamente deturpados no filme. Escrevi os personagens que se envolvem em lutas de rua inspirado no ótimo "Lutador de Rua"

 de Walter Hill com o grande Charles Bronson. São sujeitos que lutam por dinheiro sem nenhum tipo de proteção e nos lugares mais improváveis. É o que o filme "Fighting" tem. A luta é marcada e acontece num beco do Brooklin ou numa mansão de algum milionário. Tanto faz. Os dois caras simplesmente começam a lutar e vale realmente tudo. No filme "Nossa vida não cabe num Opala", os caras levaram as lutas pra um ringue, com luvas de boxe e o escambau. Não era nada daquilo. É claro que o roteirista nunca conversou comigo a respeito disso e que o Diretor não teve o menor interesse em me consultar e entender minhas referências. Por isso o filme é tão fraco. Nem vou discutir os outros personagens como a irmã Magali (totalmente deturpada) ou o empresário Guto que ficou caricatural. Ou a solitária Silvia que no filme parece apenas uma garota que sai à noite pra "caçar" alguns caras pra transar, nada mais que isso. Voltei a falar disso porque assisti o filme "fighting" e fiquei pensando no enorme desperdício que é fazer um filme sem conhecimento de causa, sem entender de onde veio toda a encrenca e sem sacar as referências do cara que escreveu a história. É por isso que sempre fico chateado com a maioria das montagens de minhas peças que assisto por aí. Os caras estudam Shakespeare, Nelson Rodrigues e Koltés e querem encenar um texto que escrevi. Fica difícil. Aconselho a quem quiser se aventurar a encenar outro texto meu (quase todos os dias recebo pedidos de encenação) a ler muito gibí, ver muito filme alternativo (Jarmush, Cassavetes, Abel FerraraHal Hartley por exemplo) e inclusive muito filme "B" (entendam que eu sou fã de Stalone, Carpenter, Rob Zombie e George Romero por exemplo). Esqueçam David Lynch, Almodovar, Lars Von Trier, etc. Eu não tenho nada a ver com isso. Tentem ler os caras que realmente mudaram minha vida (Bukowski, Spillane, Henry Miller, Kerouac, Chandler, Goodis, Carver, etc). Também tem que sair pra rua, beber até de manhã com alguns amigos engraçados e apaixonados. Tem que comer algumas mulheres ou até muitas mulheres (faz bem pra caralho), mas também tem que se apaixonar por uma e ficar muito mal quando ela te deixar e trocar por outro mais bacana. Você sabe que tá sempre no fim da fila dos caras bacanas, né? E tem que fazer alguns poemas decentes quando isso acontecer. Tem que ouvir muito blues (porque só no blues está toda a verdade). E tem que ter toda a melancolia necessária. Tem que saber que nada vai dar certo e tem que saber todas as regras do jogo e não deve usar nenhuma delas, porque na verdade você não deve trapacear com a vida em benefício próprio. Tem que estar disponível pra ser socado na cara quando a luta começar. Não tem que ter vergonha de sentir tudo do jeito mais intenso possível. E errar, e se arrepender. E voltar atrás. E não pode ter medo do erro, porque no erro reside toda a santidade. Ou você realmente acha que os santos são perfeitos? Você acha mesmo que eles já não se pegaram amaldiçoando o Deus impassivel que armou essa pra eles? E tem que chorar sozinho vendo alguma cena de algum filme que você já viu novecentas vezes. Tem que ter orgulho das cicatrizes. Só assim vai ser possível. Se você não estiver estômago para isso, te aconselho a encenar algum Shakespeare ou algum Nelson Rodrigues (eles são bons pra caralho, eu reconheço, e isso não é nenhuma ironia) e me esqueçam. Eu não tenho nada a ver com isso. E talvez eu não tenha nada a ver com vocês.

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HOJE

JAM COM CHURRASCO NA GALERIA

E hoje acontece a nossa tradicional jam com churrasco. Basa, Fábio Brum, Flávio Vajman e eu vamos tocar nossas músicas por lá enquanto a rapaziada come churrasco e bebe cerveja. Começa às 17h e nesse domingo tem hora pra acabar. A gente deve terminar às 22h, por causa da lei psiu que tá pegando no pé da Galeria (Rua dos Pinheiros, 493). Entrada Free.

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E ontem a gente tocou no "Vocábulário", mais ou menos o que gente faz nas jams. E a Tatiane Santana escreveu em seu blog sobre nossa apresentação. Muito bacana.

Músicas tem sentimentos?

domingo, 29 de novembro de 2009

Do dia 28/11 às 9h00 até dia 29/11 (hoje) tem o Vira Cultura na Livraria Cultura, como não podia deixar de ser, fui.



Fui com uma amiga.

Foda foi pouco. Assistimos ao "Vocabulário", um evento que Paulo Scott organiza e tem direção da Fernanda D'Umbra.
Mário Bortolotto estava lá com Fábio Brum , Basa e Flavinho Vajman. Arrebentaram, para variar.
Conheço o trabalho do Bortolotto pelo meu pai, desde que eu tinha uns 18 anos, ou seja à uns 8 anos atrás, tempinho legal né?
Li duas obras dele que são Mamãe Não Voltou do Supermercado e Bagana na Chuva.
Meu pai me emprestou e foram os únicos livros que me fez devolver, ainda compro esses livros para mim...
Acompanho alguns shows dele, assisti á peça Brutal, que é um tapa na cara, e considerei bem ao estilo Dostoievski. Sabe aquelas obras que mexem com os sentimentos alheios e prova que todos são passíveis e fazem merdas, e depois procuram desculpas para reparar seus erros.
Não sou boa como crítica também, mas sou curiosa e a minha ousadia me faz ver além do comum, ou penso que sou assim.
Não ligo também para o que pensam de mim, se sou boa crítica, ou a esquisita, a antipática, porque sou mesmo, mas pelo menos sempre estou com pessoas que amo e sei que gostam de mim.
Só quero ser o que julgo bom para mim. Ser eu mesma, sem puxar saco de ninguém ou fazer amizades por interesse.
Chata para caralho né?
Bortolotto cantou três músicas dele e vou dizer, me emocionei com as letras como á muito não me emocionava com música alguma. De repente foi o modo como ele cantou, o sentimento que passou, aquele copo descartável na mão, a humildade em sentar com os amigos no palco, os caras tocando, se compreendendo pelo olhar.
São sempre assim, emociona ver. Arrepia a alma!
Olha, não é só cantar sabe? Sempre percebi isto, desde que comecei a ouvir músicas, não entendo merda nenhuma, mas a coisa mais broxante é quando você vai ouvir alguma banda tocar e aquilo tudo que você imagina no CD ao ouvir pessoalmente é uma merda. A frustração é momentânea, você vai com toda aquela ideologia que você fazia da música, da banda, de tudo e quando ouve...esmorece.
Por isto, desde que resolvi crescer, parei de colocar expectativas em livros Best Sellers e músicas do momento, porque com a era digital as pessoas conseguem enganar á todos, inclusive ludibriar sentimentos.
Sou taxada de chata, e muitos não conhecem as músicas e livros que gosto, mas eu ligo? Merda nenhuma...

Fiquei possessa porque agora consegui constatar que estão falsificando sentimentos em músicas e livros.

É demais, diz aí?
                                        (Tatiane Santana)
Foto que a Tati tirou


Escrito por Mário Bortolotto às 03h24
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MAIS UMA NOITE DE BILHAR E A MINHA KITCHENETE AGORA EM NOVA VERSÃO (SEM POEIRA)

E das boas. Vejo os amigos correndo atordoados pelo bar, entrando em treta com argentinos, rindo das melhores piadas do Guizé e do Carcarah. Eu simplesmente fico jogando, quase em silêncio. Não saio da mesa. É preciso ganhar pra me tirar. E como eu disse ando fodão nos últimos dias. Só no bilhar, é claro, mas mesmo assim, fodão. Eu escondo a bola, mato só na hora certa, complico o jogo do adversário. Joguei com a Sah e a Bianca de parceiras e mesmo assim, a gente ainda ganhou. Na verdade com a Sah, ficamos empatados em 2 a 2 com o Guizé e o Ravel, mas é que a Sah conseguiu errar as duas últimas bolas. Quando eu digo errar a bola, é isso mesmo que estou falando. Não estou falando "errar a jogada". Ela até joga direitinho, mas tava desconcentrada. E vejo o dia amanhecer lá da mesa de bilhar. Quando volto pra casa já é de manhã. A Bianca ainda me liga perguntando onde é que eu fui. Simplesmente fui embora, só isso. Parei no "Estrela da Roosevelt" pra tomar o sagrado café com leite e pão na chapa. E vim dormir. Daqui há pouco a Adriana chega aqui pra limpar a minha casa. Resolvi ceder a idéia de ter uma faxineira pelo menos quinzenalmente pra limpar a minha kitchenete. Tava relutante porque não queria ninguém mexendo nas minhas coisas, mas tá quase impossível viver aqui desse jeito. Então que venha a Adriana.

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Logo mais à noite tem o Vocabulário. É um evento que o Paulo Scott organiza e tem direção da Fernanda. Acho que vai ser bacana. Comigo vão estar o Fábio Brum , Basa e Flavinho Vajman e a gente deve tocar tipo três músicas com letras minhas, já que a parada é de literatura. Da rapaziada que vai estar lá, só não conheço muito bem o Mauro Dahmer. Os outros são todos brothers : Pinduca, Marcelo Montenegro, Wander Wildner, André Santana, Flu e Martinha Nowill. Dessa vez o evento acontece no Teatro Eva Herz (Livraria Cultura - Conjunto Nacional - Av. Paulista, 273). Começa às 20h e deve terminar às 22h. Quem quiser assistir, não paga nada, mas tem que retirar uma senha que começa a ser distribuída às 19h.

 

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E amanhã acontece a nossa tradicional jam com churrasco. Basa, Fábio Brum, Flávio Vajman e eu vamos tocar nossas músicas por lá enquanto a rapaziada come churrasco e bebe cerveja. Irônicamente estamos tocando sempre uma música do meu amigo Renato Fernandes que é foda ("Ando me sentindo miseravelmente só / eu ando bêbado / bêbado de dar dó / mas eu me contento com as migalhas do seu carinho / você nem precisa me amar / só não me deixe essa noite / a solidão às vezes fere / como uma navalha / meu bem, eu sei que sou / bêbado, vadio e canalha"). Só rindo mesmo, né, Brum? A gente costuma abrir a jam com essa música. Começa às 17h e nesse domingo tem hora pra acabar. A gente deve terminar às 22h, por causa da lei psiu que tá pegando no pé da Galeria (Rua dos Pinheiros, 493).

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E dia desses o Bruno Bandido pediu que eu enviasse pra ele o meu texto "Uma pilha de pratos na cozinha". Eu mandei e ele leu. Ontem quando fui passear pelo blog dele, encontrei esse texto que é sem dúvida a melhor análise que já fizeram do meu texto. E sabem qual é o segredo? O Bruno, além de evidentemente, escrever bem, tá ligado em todas as referências. Du caralho.

Sobre a merda desses pratos sujos

Novembro 27, 2009 por brunobandido

 

“Meia garrafa de whisky, dois filmes do Cassavetes, dois shows do Van Morrison. Existe um tipo de felicidade subterrânea que você não vai conseguir entender no seu dialeto. Você sequer faz idéia de quantas sílabas ela tem.” (Mário Bortolotto)

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Ontem foi a noite de um dia difícil, como cantaram Lennon e McCartney, mas quem largou essa frase mesmo foi o Ringo Star, o único da fab-four que eu não identifico nenhuma chatice. Deitei no colchão com o notebook na barriga e fiquei escrevendo e por mais que eu quisesse sair não conseguia me levantar. Também aproveitei pra ler uns mails e responder outros e ler outras coisas também, tudo enquanto escutava umas músicas do Bando do Velho Jack.

Às vezes eu recebo alguns e-mails por causa desse blog. Gente que quer comentar ou reclamar algo sobre o que escrevo aqui. Esses dias recebi um que dizia, entre outras coisas, “Bandido, descobri o blog há muito pouco tempo. Mas li todo o arquivo que tem nele!!!. Pra você que faz questão de dizer que não consegue engolir as músicas da Ana Carolina e adora os diálogos do filme do Bruce Willis em que ele é detetive fracassado, faz  referências a George Romero e conta causos de garotas perdidas, aconselho – se é que você não conhece – uma peça do Mário Bortolotto chamada “uma pilha de pratos na cozinha”. Se você viu ou leu esta peça deve saber do que estou falando, se não, vai gostar muito dela. Ontem, você escreveu que só tem dois pratos na cozinha para evitar a pilha toda. É interessante de pensar nisso se compararmos com os pratos desta peça dele.”

Eu não conhecia. Li e gostei muito. É uma puta duma peça, no duro. O Julio, que é meio que o personagem principal da bagaça, é um tipo de cara que deve ter lido muito Raymond Chandler e assistido a um bocado de filmes de faroeste em sua vida. O cara não diz uma frase que não seja pra matar, a peça toda é no seu apartamento bagunçado, aí ele fica emendando uns diálogos com outros tipos de solitários, um pianista de cabaré (Daniel), muito do mala, e um vizinho viado afetado e evangélico que tá procurando por pó (Breno). Aí que tão as sacadas irônicas que me divertiam um bocado. Logo no início o Daniel tá numas de lamentar por amores perdidos e diz aquelas coisas do tipo que se correspondesse um sorriso de uma mulher na rua eles poderiam ter se conhecido e o destino teria mudado pra sempre, algo assim. E quando ele pergunta “Você nunca pensou nisso?” O Julio diz que prefere gastar seu tempo com questionamentos mais filosóficos. “Tipo?” E Julio responde, “O fantasma de Elvis Presley, o Monstro de Lochness, seria Keith Richards a prova semi-viva de que os zumbis não são apenas monstros criados por George Romero?” Daniel rebate “Mas os zumbis existem. Eles vivem no Haiti. Ou pelo menos, eles quase vivem, é ou não é?” “Me lembre de não ser mais irônico com você.”

E assim vai indo, carregado nesse cinismo que leva a vida sempre “duas doses abaixo”, com sacadas ótimas que são tantas e nem dá pra colocar muitas aqui. Uma bem engraçada é quando chega o Breno todo afetado e diz “…Pensa bem, eu sou síndico, sou evangélico, homossexual enrustido e vim aqui pra saber se o Júlio tem algo pra cheirar.” Daí o cara me larga essa “Minhas cuecas sujas estão no cesto de roupa. Fique a vontade.” Fora a tiração de sarro filha da puta desse personagem, porra, imaginem só. O síndico do prédio, que além de ser evangélico é uma bicha louca, bate na porta. O que cês esperam quando um síndico evangélico bate na porta de um bêbado? Reclamação, cobrança, ou algo do tipo. Mas ele pede uma bucha de cocaína. Daí a gente vai percebendo como o dramaturgo garante pra si mesmo uma espécie de diversão que nem todo público consegue sacar, e as frases sarcásticas seguem aparecendo com direito a discussões muito intelectuais e cultas, como uma sobre o medo. “O medo é sempre o segundo estágio” diz um personagem, exemplificando isso com o fato do cara dar ou não a bunda. Primeiro tem que vir o interesse.

Mas aquilo que eu falei da auto-diversão de quem escreve, vai além, o Bortolotto fez um tipo de coisa (e essa não é a primeira peça dele que eu leio e vejo isso) em que ele deve pensar algo como, “isso aí platéia, podem rir desses fudidos à vontade, mas quando cês descobrirem o que leva esses caras a apelarem pra tanta sagacidade, aí eu quero ver cês saírem daqui com algum bom sorriso no rosto”. E é então que entra a personagem feminina, ex de Julio, o amor da vida do cara que lhe deu um pé na bunda por todos esses motivos que eu tô cansado de falar que as garotas desistem de continuar coa gente.

E a gente entende porque ela era a tal, é aquele tipo de mulher que eu me apaixonaria de prima, aquelas que cuidam das nossas bobagens, embora também cometam as delas, que nos melhoram a ressaca e conversam sobre gibis. O Julio explica melhor:

“Ela aparecia por aqui, tirava minha cabeça da privada, limpava meu vômito, esvaziava os cinzeiros e cantava Billie Holiday pra eu dormir. Aí um dia apareceu um cara que foi logo tirando o casaco e colocando em cima da cadeira. Ele tinha aquele olhar confiante dos caras que andam com medalhões no pescoço. Ele disse que tinha certeza sobre as coisas. Não há como competir com alguém assim. Ela colocou o casaco dele sobre os ombros e foi embora. Ele foi atrás dela. Eu fiquei aqui, o gato de apartamento olhando pela janela. De vez em quando um pombo desorientado se espatifava na janela. Alguns tem mais sorte que outros.”

É aí que o tempo começa a escurecer mesmo, embora já existissem prenúncios confiáveis. A mulher parece ser bacana mas também traz os seus dramas consigo e também é sarcástica como uma espécie de proteção. Mas a gente sempre sabe a real dessas pessoas, e o artista que for encarar esses papéis também tem que saber, tem que ter aquela dor no fundo dos olhos apesar da situação, sacam? Não importa se tu tá contente porque teu time ganhou um campeonato, ou porque tu te divertiu um bocado com os amigos ou porque uma mulher tá cantando Billie Holiday pra tu dormir, a dor segue ali, achando que tá escondida no fundo dos teus olhos.

Voltando pra peça, eu poderia explicar sobre a pilha de pratos e tudo o mais, mas eu não me atrevo porque vou acabar querendo contar o final que é bonito pra caralho. Quem já viu ou leu sabe do que eu tô falando, deve ser muito bonito de ver aquele final.  Sei lá, se eu sacasse de teatro eu iria querer pegar uns atores bacanas e montar essa bagaça, daqueles que sabem como deixar estereótipos bacanas, e ficar causando silêncios, aqueles em que as pessoas se reviram nas cadeiras e olham umas pras outras meio que desconcertadas, aqueles em que os mais sentimentais não seguram o choro ou um riso nervoso, quase que de constrangimento. Pode crer! Se eu soubesse dirigir teatro eu ia querer fazer isso, com esse texto fica fácil, não sem antes dar um gostinho agradável e enganar os mais desavisados e inocentes, que nem esperam o que está por vir. Me pergunto o que acontece com as pessoas que vão ver uma peça dessas esperando um entretenimento saudável antes de ir sorrir e conversar coisas leves com os amigos. Será que essas pessoas vão assistir uma peça dessas? Se vão, eu queria ver a cara das figuras ao sair do teatro.

E sobre o que o e-mail dizia…, do fato de eu ter apenas dois pratos pra evitar a pilha, bem, o Julio mesmo responde isso quando reclamam da montanha que se acumula na cozinha, acrescentando mais uma pérola no seu repertório durão de tiradas do tipo romances policiais ou filmes do Clint Eastwood. “Sinal de que tenho muitos pratos, e olha que eu moro sozinho.”

                                                          (Bruno Bandido)

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E pra terminar o post de hoje, antes de capotar pra tentar dormir um pouco antes da Adriana chegar, vou colocar aqui o link pra música "Bortolotto Blues" (do último CD das "Velhas Virgens"). A música tem esse título porque a inspiração nasceu de uma conversa que tive com o Paulão quando ainda era casado. E aí eles gravaram e o Paulão me convidou pra cantar com ele na gravação. O resultado é esse aí: http://www.youtube.com/watch?v=SHDbc3njUdU



Escrito por Mário Bortolotto às 09h02
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MINHAS CONTAS COM O TEMPO

Acordei com vontade de pagar contas, é verdade. Uma hora eu vou ter que fazer isso, então que seja hoje. Noite dessas, o Pinduca tava jantando comigo e me perguntou de quanto eu preciso pra viver durante um mês. Disse pra ele que não sabia responder. Eu tenho algumas contas pra pagar, mando dinheiro pra minha filha sempre que a Chris pede e quando sobra gasto em gíbi, livro, CD e no bar, é claro. Ah, e janto lá no Planeta´s todas as noites. O mesmo prato de sempre. Os garçons já sabem. Eles me trazem a taça de vinho e logo depois o meu prato. Ontem tava tanto calor que tomei até um chopp. Não me sobra dinheiro, mas há muito tempo que não tenho nenhuma dívida e isso pra mim já é acalentador. Quando pinta alguma carona, vou até à Mercearia beber encostado no balcão, ficar mexendo nos livros e falando com o Marquinhos. Na terça-feira depois de assistir o show das atrizes que cantam, fui até à Mercearia. Pedi uma taça de vinho e fiquei lá bebendo sossegado. Aí apareceram essas garotas. Uma delas é de Quebec e disse que quer escrever um best seller e ficar rica. Achei engraçado. Acho que é mesmo possível escrever um best seller no Canadá e ficar rico. Tava lendo dia desses que nos EUA basta escrever um livro bem sucedido e pronto, é só viver das glórias dele. Por aqui é diferente, né? A garota (Carolina é o nome dela) ainda disse o quanto ama Jack Kerouac e ficamos conversando de literatura. Ela falando em espanhol e eu falando o meu português tosco tentando articular bem as palavras numas de me fazer entender. Depois elas me deram uma carona até o Parlapatões onde encontrei uma pá de outros amigos e a noite como sempre se estendeu. De manhã já muito bêbado, mandei um e-mail que não lembrava de ter escrito. Só no outro dia quando fui olhar na caixa de "enviadas" é que percebi que tinha escrito. Não me arrependo do que escrevi, porque é tudo verdade, mas é engraçado saber que só escrevi porque tava muito bêbado. Se tivesse sóbrio, não teria a manha de escrever o meu pensamento tão objetivamente. E depois ainda dizem que bebida faz mal. Fiquei orgulhoso do que escrevi. À noite fui à inauguração da Escola de Teatro. Encontrei uma rapaziada de Londrina trabalhando na produção da inauguração. A Patricia que eu não via há séculos tava trabalhando lá. Ela me viu lá fora encostado em um fusca conversando com alguns amigos e com o fone do meu MP3 em uma de minhas orelhas. Tava rolando aquela pá de discursos chatos e eu não tava com saco de ficar lá dentro ouvindo aquilo. Então ela disse: "Tira isso, Mário pra conversar com a gente". Respondi: "Não. Eu tô ouvindo o que você tá falando e tô ouvindo música também". Ela então riu e disse: "Você sempre foi assim, né? Rebeldezinho. Quando te conheci, você era um jovenzinho rebelde". Falei rindo: "Pois é, e hoje eu sou um velho rebelde. Algumas coisas não mudam, né?" Quando a solenidade toda acabou, fui até a sala VIP e descolei algumas doses de whisky. O mundo ficou um pouco melhor. Depois de tudo a gente veio parar na praça e de lá fomos assistir o Show do Paulão no "Clube dos Cornos". Tava muito engraçado. Fiquei sentado com o Cavalo e a gente ficava rindo da cara de pau do Paulão. Ele só canta música de corno e pede pra alguém da platéia subir lá e contar algum chifre que levou. Se subir e fizer isso, ganha uma cerveja. Se contar e ainda ligar pra mulher que colocou o chifre e ela confirmar, ganha uma dose de whisky. Acho que nunca funcionou. Ninguém deve ter contado nada, mas ele insiste. Aí ele cantou "Coração Selvagem" do Belchior. Puta música. "Meu bem, guarde uma frase pra mim / dentro da sua canção / esconda um beijo pra mim / sob as dobras do blusão / eu quero um gole de cerveja no seu copo, no seu colo e nesse bar" Emocionante. No final perguntei pra ele: "Que porra é essa, Paulão? Não era só música de corno? O que "Coração Selvagem" tem a ver com isso?" Ele respondeu malandramente: "Pois é. Tem aquele verso : talvez eu morra jovem, alguma curva do caminho / algum punhal de amor traído completará o meu destino". Saquei que era só isso mesmo. Vontade de se divertir. De cantar algumas músicas que falam ao coração do cara. Não é muito diferente do que fazemos nos shows da nossa banda. Ontem foi especial. Eu tava mezzo triste e mezzo alegre. Tava alegre porque tive uma tarde ótima e triste porque tive essa tarde ótima. Difícil explicar, né? Deixa pra lá. Não quero que todo mundo entenda. Como disse o meu amigo Basa no blog dele: "Escrevo pra reler certas coisas tempos depois e aprender algo sobre mim. Costumo contar problemas aqui no blog também pra não precisar encher o saco dos meus amigos contando isso pra eles. Prefiro sentar, tomar umas cervejas e dar risada do que ficar contando o quanto meu dia foi foda". Acho que é por aí mesmo. Então simplesmente subi no palco e fizemos um show foda pra caralho. Meu irmão Rubens K tocou com a gente ontem substituindo o Pagotto que tava enrolado no trampo dele. E tocou pra caralho, é claro. Fábio Elias do "Relespública" também tava lá e a gente tocou juntos "Eu sou terrível" do Roberto Carlos. Marcelo Paiva foi lá com o seu sobrinho. Andrezão também tava lá. E a Paula de Campo Grande. Mutarelli chegou no final e a gente tocou "Gilete" pra ele". Tocamos um rock and roll novo e foi divertido. Antes do show começar peguei uma garrafa de água e fiquei bebendo sentado na escada sozinho e vendo os caras da banda arrumando os equipamentos. Fiquei pensando: "Olha os caras aí. Eles gostam do que estão prestes a fazer. Eles se divertem e eu faço parte disso. Bom ter amigos assim. É um privilégio tocar com esses caras numa noite dessas depois da tarde que eu tive". Grande rock and roll. Me salva quase todos os dias desde o tempo que eu era um "jovenzinho rebelde" lá em Londrina. Depois fomos jogar bilhar e eu tava sereno. Não consegui perder nenhuma. Fiquei jogando tranquilo. Os caras desafiavam e eu dizia: "Pega a ficha lá" e continuava jogando e vendo as bolas caírem. Eu tava fodão, pelo menos no bilhar. Tem noites que é assim. Meu amigo Cassiano me deu uma dose de Jack. Eu lembrei do ótimo poema que ele escreveu no seu blog: "Amiga / que reconheço / aos poucos / nos poços de mim / sem fim / posso estar de roupa rasgada / pelado ou engomado / de pé ou deitado / amante querida / companheira fudida / que não se esquiva / não me deixa sozinho / por nada / nessa vida / cumplice de mim / a solidão" Disse pra ele que é uma ótima letra de blues e a gente vai tentar fazer. Bacana mesmo. Acho que queria conversar uma coisa ou outra com alguns amigos, mas eles pareciam estar todos ocupados com seus próprios problemas e resolvi deixar pra lá. Aí uma garota que eu conheço há muito tempo mas com quem nunca conversei direito veio falar comigo. Ela é dessas garotas espiritualizadas que percebem sinais nas outras pessoas. Fiquei lembrando do meu amigo Fauzi Arap enquanto ela falava comigo. Ele também é assim. Ela me disse que sonhou comigo a noite toda e que quando acordou decidiu que precisava ouvir minha música e conversar comigo e que depois do show sentiu uma sensação ótima de reconhecimento, acho que foi algo assim que ela falou, não sei direito, mas ela disse uma pá de coisa bacana que me deixou um pouco constrangido. Tem pessoas que fazem a gente se sentir importante, né? Quando voltei pra casa sozinho ontem de manhã, foi pensando em tudo isso. Que a vida nos proporciona momentos realmente enternecedores. E por mais que estejamos tristes ou desconsolados, ainda assim é muito foda. Parei pra tomar um café com leite no bar do Fabinho. Pedi um pão na chapa e ele disse que ainda não tinha. Pensei: "Acho que saí do bar cedo demais" Comi um bolo de aipim com café e vim dormir com uma sensação de paz indescrítivel. Então daqui há algum tempo quando eu ler esse post que escrevi agora, vou lembrar que tive esse momento de paz nessa madrugada, que há anjos perdidos por aí e eu estou longe de ser um deles, mas saber indentificar já não é pra qualquer um. Estou acertando minhas contas com o tempo. Uma hora ele vem e te cobra, né?

Essa foto pode não ter nada a ver com o post de hoje, mas eu tirei com o meu celular e achei bacana. Acho que serve de capa pra um pulp fiction.

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E hoje tem "Brutal". Faltam apenas três apresentações pra encerrar a temporada.

 

 



Escrito por Mário Bortolotto às 13h24
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SACO DE RATOS - HOJE

Dia de show nosso no Café Aurora.

"SACO DE RATOS" NO CAFÉ AURORA

Saco de Ratos é : Mário Bortolotto : Vocal / Fábio Brum e Marcelo Watanabe (guitarras) / Fábio Pagotto (baixo) / Rick Vechione (bateria)

E agora há pouco fui informado que hoje excepcionalmente quem vai tocar contrabaixo (substituindo o Pagotto) é o meu amigo irmão Rubens K.

Começa tipo 23h30.

O Café Aurora fica na Rua 13 de Maio, 112 (Bela Vista). 

R$ 5 a entrada. R$ 3 a cerveja em lata.

http://www.myspace.com/sacoderatos 

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E ontem aconteceu a inauguração da Escola de Teatro lá no Brás. E teve também o lançamento de alguns livros da Imprensa Oficial. Vários novos dramaturgos com suas obras publicadas. Bem bacana. Tive a honra de fazer a apresentação do livro do meu amigo Sérgio Melo.

*RARAMENTE ACONTECE UM OLHAR COM CARINHO

 

Tenho almoçado sozinho com meus coturnos sem cadarço e meu olhar perdido na janela do restaurante. Uma taça de vinho que sempre derrama algumas gotas no meu casaco. Dia desses entrou no restaurante um cara que me lembrou o Ivo de "Ladeiras em carrinhos de supermercado", ou talvez ele tenha me lembrado o meu amigo Nelson Peres que fez a primeira leitura do texto lá no Masp. Só sei que eu podia acompanhar o seu andar triste enquanto tentava escolher a mesa e já procurava um garçon com aquele olhar um pouco conformado de "ok, vou ter que esperar para ser atendido". Aí entrou uma ex-namorada no restaurante, alguém que um dia eu achei que podia confiar minhas feridas. Minha enfermeira de plantão. Alguém que diria : "Cuidado. Esse lado pra cima. Ele é frágil". Lembrei de uma velha música do Belchior enquanto ela apenas me cumprimentava com um aceno de cabeça. Um jeito distante de aceitar a minha presença no mesmo lugar que ela e lembrei do mesmo Ivo falando: "Nada é mais constrangedor que a formalidade típica entre duas pessoas que foram íntimas um dia". Conseguia ouvir o clone do Ivo dizendo aquilo para o garçon que veio atendê-lo embora ele provavelmente estivesse apenas e formalmente dizendo: "Acho que eu vou comer o Capeletti ao forno e tomar uma taça de vinho". Penso que poderia ter sobrevivido àquele almoço se o passado não tivesse me acenado e perturbado a minha paz. Acho que eu queria que ela tivesse me olhado "com a vontade de um cão preso na coleira". Mas ela apenas me acenou com um ar distante enquanto devia estar pensando numa salada mista ou qualquer coisa do tipo. Assim são os personagens de Sérgio Melo. Eles podem ser encontrados nos lugares mais prosaicos. Numa loja de conveniência ou num bar mal afamado com uma juke box que só toca velhas canções de Neil Sedaka ou algo do tipo. Eles moram em casas pequenas onde a luz não entra com facilidade. Eles ouvem Chet Baker na penumbra e sempre tem um passado mais ou menos sombrio. E em algum momento de suas vidas, eles vão ter que enfrentar esse passado. E talvez não sobrevivam a ele. Alguns vão empunhar uma barra de ferro e esperar pelo inevitável. Sergio Melo leu Tenessee Willians e Sam Shepard com a atenção de um gato que vê o peixe sendo fisgado da frigideira e hoje vive com intensidade entre corridas ao sub-mundo, partidas de volêi e afagos na sobrinha desde que gritou o que achava ser seu segredo na Mercearia São Pedro depois de já ter bebido várias. Então nossa amiga Clarinha Averbuck falou com afetação blase : "E daí? Grande coisa. Eu também". Sérgio talvez tenha pensado não sobreviver ao seu segredo. Os personagens dele também temem por isso o tempo todo. E naquela noite enquanto ele parecia aliviado dirigindo o seu carro fui pensando nos homens e nos seus segredos, fui pensando no nosso instinto de sobrevivência. No coração de plástico que implantaram em nosso peito e esqueceram de avisar que era frágil. Então fico pensando que não preciso mais dessas lembranças todas. De acreditar que "o travesseiro um dia cobra". Vou escrever a minha história e Sérgio vai escrever a dele com a nobreza & coragem que lhe é peculiar. E ele não é o tipo de dramaturgo que esconde as pistas de sua história particular em suas histórias públicas. Elas estão lá. É só ficar atento. Como fazia Zé Vicente, por exemplo, só pra citar um dramaturgo brasileiro genial e mais próximo de nós. Sérgio Melo é antes de tudo um poeta refinado, alguém capaz de imagens assombrosamente belas como as batatas palito frigindo na peça "Aos ossos que tanto doem no inverno". Sérgio não tem noção de como foi importante pra mim trabalhar como ator nessa peça na fase de vida em que me encontrava. Mas sei que ele tem noção exata da ternura & da melancolia que brota dos seus versos tristes disfarçados em diálogos teatrais. Então aquele sujeito que bebe comigo & joga bilhar & fala de livros de Raymond Carver & é meio tímido quando tá sóbrio ou quando tem que falar em público & de quem eu tive dúvidas quando li o primeiro texto (só quando li os poemas do Sérgio é que entendi o imenso talento e toda a confusão) se tornou um dramaturgo personalíssimo. Então não vá achar que você vai ler esses textos e compreender toda a encrenca se em algum momento não se confundir com os personagens, não ouvi-los atentamente sussurrando em seus ouvidos "a vida não me reservou nada de esplêndido, mas eu fui lá e arranquei dela". Esse é um mundo frio onde "raramente acontece um olhar com carinho", mas nos textos de Sérgio, elas insistem em arder de um jeito quase inexplicável, então é possível acreditar que um sujeito que estava disposto a atirar na cabeça do outro, minutos depois vá até o quarto buscar um cobertor para que o seu desafeto não passe frio deitado no sofá. Sérgio há muito já entende generosamente que não há como passar por cima de nossos sentimentos mais simples. E isso faz toda a diferença.

 

-         Mário Bortolotto

 

*”Raramente acontece um olhar com carinho” é o nome de uma música de Guilherme Lamounier

 

  

 

 

 



Escrito por Mário Bortolotto às 05h00
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Eu vejo as pessoas falando em recomeço, em novas chances, etc. Acho até bonito, mas não acredito nisso. Eu acredito sempre em continuar enquanto for possível. É claro que continuamos um pouco mais safos, mais ligados, mas continuamos. De vez em quando você pode chegar sozinho em casa e ficar horas olhando pela janela. Até parece um pit stop forçado, né? Mas na verdade você tá continuando, só isso. Toda uma trajetória de manobras erradas, de saltos no escuro e de alguns acertos. Você continua, sempre. Quando eu era jovem, lá com meus 22 anos, era um bocado prepotente do tipo que achava que sabia tudo e que nada poderia me deter. Hoje com 47 anos, qualquer resquício daquela prepotencia já dançou completamente. É claro que de vez em quando, principalmente quando me sinto ameaçado, me armo de uma couraça e deixo aflorar o mesmo sentimento de prepotencia que tinha quando jovem e aí posso virar metralhadora giratória e até ofender pessoas queridas. Depois me sinto muito mal, tenho vontade de pedir desculpas e de dizer que sou mesmo um merda e todo o tipo de coisa que vem junto com o arrependimento. Seria quase um "vamos recomeçar do zero, meus amigos?" Mas isso não existe. Não se recomeça. Pelo menos eu não acredito nisso. A gente continua e todos os nossos erros ficam contabilizados como se fossem alertas piscando na sua cabeça. Então se eu ando no sol da manhã e fico esperando um táxi no meio da rua. Um táxi que nunca chega em plena cidade de São Paulo. Dá pra acreditar nisso. Como é que um bêbado sonado e fudido pode ficar quinze minutos esperando um táxi passar? Uma noite sem dormir depois de uma porrada de garrafas de vinho e uma vontade filha da puta de entregar os pontos...se faço isso e espero alguma espécie de perdão enquanto o táxi rasteja pelas ruas... Bem, se faço isso, logo depois quando entro em casa e sento no colchão totalmente nocauteado, percebo que apenas continuo. Não há nada além disso. Bem que dá vontade de parar tudo. Mas a gente continua, sempre. É o que tô fazendo agora.

"Antigamente quando eu me excedia / ou fazia alguma coisa errada / naturalmente minha mãe dizia / ele é uma criança / não entende nada / por dentro eu ria / satisfeito e mudo / eu era um homem, entendia tudo / hoje só com meus problemas / rezo muito, mas eu não me iludo / sempre me dizem quando eu fico sério / ele é um homem e entende tudo / por dentro com a alma atarantada / sou uma criança / não entendo nada"

                                      (Erasmo Carlos)

O Tremendão tava na Pizzaria Guanabara noite dessas. A Paulinha disse que ele tava cantando "Detalhes" na mesa. Dia desses a gente tava na Jam com Churrasco e o Basa puxou os primeiros acordes de "Detalhes" e eu comecei a cantar. Lembro que até o Brum solou no meio. Foi bonito. O velho Erasmo. Mirisola gosta dele. Na minha adaptação de "O Herói Devolvido" coloquei só Erasmo e Piazzola na trilha sonora. Marcelo Montenegro disse que o disco novo dele tá ótimo. Preciso ouvir. A gente continua, né?



Escrito por Mário Bortolotto às 17h54
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Cara, tô bem louco. Não é nenhuma novidade pra quem lê esse blog, náo é mesmo? A gente tava bebendo no bar da esquina. Antes a gente foi no aniversário da Luna. E eu tava com uma garrafa de Jameson. Presente do meu grande amigo Douglas Kim. E a gente matou a garrafa. E todas as outras bebidas da festa. E eu fui foda. Eu  não liguei pra ninguém. Não mandei mensagem pra ninguém. E isso é algo a se comemorar. Porque sempre que fico bêbado, fico o mó carente. Mas não foi o que aconteceu hoje. É claro que fiquei bêbado, carente e me senti solitário pra caralho. mas não liguei pra ninguém. Foda-se. Fiquei conversando com meus amigos e dizendo como me sentia. Mas só pra eles. E ponto final. E deixei meus amigos no bar com alguns versos sacanas. Porque é só assim que eu sei realmente me comunicar. Alguns podem dizer que é alguma espécie de defesa. Não tô nem aí. Foi o que fiz. E tô aqui. Não vou dizer que tô inteiro, é claro. Porque tem um pedaço de mim que tá largado no meio da rua, sendo pisoteado, esmagado e às vezes ignorado pela rapaziada.  

E hoje o meu amigo Gaúcho morreu. O Gaúcho era um cara que trabalhava de segurança na Nestor Pestana. Ele era meu amigo de muito tempo. Desde a época que eu era casado com a Fernanda e ela fazia a peça com o Fagundes. Ele adorava a Fernanda. Ele dizia que a Fernanda era minha princesa. E é claro que ele cantava a Fernanda sempre que podia. E tava tudo certo. Era um maluco, jogador exímio de bilhar e encrenqueiro mor. Ele sempre me recebia com um beijo no rosto. Não gosto de beijo de homem. Nem no rosto. É claro que isso é um machismo idiota meu. Não tem problema nenhum. Mas eu não gosto e ponto. Acho muito natural, mas prefiro um aperto de mão. Simples. Mas o Gaúcho sempre beijava e eu deixava porque eu achava que era natural da parte dele. Ontem me falaram que ele tinha morrido. Ataque cardíaco. Fiquei mal pra caralho. O Biro´s até fechou mais cedo em homenagem à ele. Grande cara. Hoje ninguém ganha de mim na mesa de bilhar. E vai ser em homenagem à ele. Não tem pra ninguém. Foda-se.

E vou terminar esse post com um poema que a Bia escreveu depois que leu o meu livro "Bagana na Chuva". Valeu, Bia.

ele costumava olhar os pássaros
o retrato de uma garota e um estilete que não ia usar
caiaques no céu
baganas atiradas em poças d’água
gotas de chuva com gosto de pepsi-cola
ele nunca conseguia chegar em casa
era preciso pegar uma mulher e fugir pra algum lugar
um lugar onde não se ouvisse falar de amor
onde ninguém soubesse tocar saxofone
mas ele apenas tomava conhaque na janela ouvindo blues
(música é melhor que saber o caminho de volta pra casa)

            (Beatriz Provazi)



Escrito por Mário Bortolotto às 08h08
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Agora que já acordei, andei pela kitchenete, assisti um episódio de "Supernatural" e até imaginei um cheese-burger no meu foreman grill. Entendam que eu só imaginei. O que sei é que há muitas coisas que podem arruinar um homem. Uma garota batendo na porta de sua casa com um pastel de queijo que ela trouxe pra você, uma mão ruim no poquer quando a aposta já é grande demais e não tem como voltar depois de um blefe tão descarado. Você sentada na pia só de calcinha bebendo um whisky na caneca porque acha mais charmoso. Ou me mandando mensagens no celular que sempre terminam em "forever". Eu não sei de quase nada, além desse estado febril em que me encontro. Acordo grudando no colchão depois de um sonho ruim, de ter esquecido de ligar o ventilador. Então ando às cegas pela casa e não bebo nada. Eu nunca bebo durante o dia. Ontem tentava explicar pra Marcela que ela não podia ser alcóolatra só porque bebia duas cervejas a mais. Ontem tentava separar uma briga de dois caras que se batiam por causa de uma mulher. Será que é sempre por causa de uma mulher? Eu sempre vou achar que é melhor que seja por causa de uma mulher. Então deito no chão da minha kitchenete depois de jogar tanta coisa fora. Tanta coisa fora que não sei como ainda não me joguei também.

Daqui há pouco : Jam com churrasco.

A Coletivo Galeria fica na Rua dos Pinheiros, 493 - A partir das 17h. - Entrada free

 



Escrito por Mário Bortolotto às 15h56
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Eu não vou falar merda nenhuma hoje. Tô muito bêbado. Fiz quase tudo certo. Só no final da noite é que vacilei. Antes fiz tudo direitinho. Eu desarmei bombas. E isso é que é importante. Então tô quase tranquilo. Agora vou dormir. Meus amigos beberam demais, rezaram demais, enlouqueceram demais e em determinado momento se pegaram desarmados e desprotegidos. E é assim que acontece. E Deus cuida de todos nós. Porque Deus gosta dos fudidos, dos desarmados, dos largados no mundo. Deus me dá tapas na cabeça e diz pra mim: "Eu até gosto de você, cuzão, mas você ainda vacila". E eu sei que ele tá certo. Eu vou melhorar. Tô quase lá. Vou dormir e acordar pra tocar alguns blues com meus grandes amigos. E é isso que importa. Pelo menos é o que eu quero que realmente importe. Gostaria que fosse muito mais, mas por enquanto, tá bom pra caralho.

Então hoje tem Jam com churrasco. E é pra lá que eu vou quando acordar.

A Coletivo Galeria fica na Rua dos Pinheiros, 493 - A partir das 17h. - Entrada free



Escrito por Mário Bortolotto às 08h12
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PERFECT DAY

outra ótima foto do Gu Ramalho na Pizzaria Guanabara. A Bia em primeiro plano.

Começar um post citando uma música do Jota Quest não me parece exatamente promissor, não é? Mas tudo pode acabar bem e eu gosto de algumas músicas da banda. E eu tava justamente ouvindo "O Sol" ("se quiser saber pra onde eu vou / pra onde tenha sol / é pra lá que eu vou") agora há pouco andando no meio da chuva enquanto o meu amigo Paulão me mandava mensagens de Camboriú. Ele dizia que lá também tava chovendo e ele tava vendo a chuva pela janela do hotel enquanto ouvia a minha música (em parceria com Paulo de Tarso) "Billy The Girl". E ele dizia também que tem uma rapaziada fazendo uma passeata pra Jesus. Concluí que Deus deve estar com o saco cheio disso. Sentei com ele ontem à noite e disse que morar com a mãe depois dos 40 me parece alguma espécie de penitência muito séria. "Pra onde tenha sol, é pra lá que eu vou". Ontem a noite começou promissora. Tava sentado em frente ao Parlapatões conversando com alguns amigos enquanto esperava a hora de montar a luz da peça "Brutal". A Bett apareceu: "Oi, Mário, vim assistir sua peça". "Pô, Bett, du caralho." "Decidi que vou parar de beber". "É mesmo? Espero que não seja nenhuma decisão com base em conselhos espirituais" "Nada disso. É que sempre que bebo, vou parar no hospital". "Porra". "Aí eu pensei. Eu ainda tenho uma garrafa de Black Label. A pessoa que mais merece ganhar essa garrafa é o Mário" "Porra!" "Tá lá no carro. Vou buscar" "Ok". E era mesmo. Uma garrafa de Black Label dentro de uma embalagem de Grant´s. Quando acabou a peça, sentei na escadaria da praça com os amigos e matamos a garrafa ali mesmo. Um carinha sentou do meu lado. "Posso sentar aqui, Bortolotto?" "Claro, senta aí" Até gosto desse cara. Ele me parece bacana. Mas é daqueles sujeitos que acreditam que o mundo está contra ele. Senta do seu lado e começa a se lamuriar e a dizer como sua vida está ruim. Falei calmamente: "Ei, Cara, todo mundo tem problemas. Você não é o único". Mas esse tipo de pessoa não ouve. Ele sequer está a fim de conversar. Ele apenas senta do seu lado e desanda a falar. Resolvi me desligar totalmente. Mas ele tentava chamar minha atenção. "Você gosta de falar de política?" Respondi: "Não. Aliás, nem gosto muito de falar. Eu preciso beber mais pra falar. Não vejo necessidade em falar. A gente pode simplesmente ficar quieto. Tá uma noite ótima. Eu tenho uma garrafa de Black Label que uma linda garota me deu agora há pouco. Tá tudo certo. Porque você não relaxa um pouco? Bebe aí. Só isso. A gente não precisa conversar." Ele se levantou: "Eu vou pegar uma cerveja. Você quer uma cerveja?" Olhei pra ele meio incrédulo. "Você sabe que raramente eu bebo cerveja". "Eu sei. Só perguntei pra provocar". Você pode não acreditar, mas eles existem. Por sorte, o Brum chegou depois e nós fomos pro Biro´s, mas a paz não durou muito. Sentei sozinho numa mesa. O Brum pegou duas doses de Black e um cara chegou. Esse é meio mala mesmo. "Acho que vou me sentar com vocês? Posso?" Tava foda. "Pô, Brother. Senta ali na outra mesa". "Pô, Bortolotto, você não gosta mesmo de mim" "É. Você tá certo. Mas você pode viver muito bem sabendo disso. E você pode não acreditar, mas não é nada pessoal" Então levantei e fui olhar as duas garotas jogando bilhar. Elas jogavam mal pra caralho, mas é bonito ver como elas se curvam pra acertar a bola. Há algo de genuinamente sexy numa garota jogando bilhar, podem ter certeza disso. É claro que vocês já repararam, mas não custa reafirmar, né? Aí chegou outro cara. E esse eu não gosto mesmo. É o tipo de cara que vive falando mal de mim e depois vem me cumprimentar. Eu não consigo entender. Ele tava conversando com o Brum e veio me cumprimentar. Eu não tava bom pra isso. Falei: "Pô, cara, eu não gosto de você e você não gosta de mim. Então porque tá me cumprimentando? Vamos manter uma distancia saudável entre nós, ok?" Tive que ir embora do bar. Atrás do melhor refúgio possível. "Perfect Day". Essa é a música que toca na peça "Da arte de subir em telhados" do Grupo Armazém. Acabei de receber a nova peça do Grupo "Inveja dos anjos" em DVD (presente do meu amigo Thales). "Perfect Day" é a música que fica tocando repetidamente no computador dela. É assim mesmo. A gente tá assistindo um filme na Tv a Cabo e começa a tocar "Perfect Day". Acordei com o cheiro de bolinhos de arroz sendo fritados. Me parece melhor do que eu esperava. "Pra onde tenha sol / é pra lá que eu vou".

E AMANHÃ TEM JAM COM CHURRASCO

Semana passada foi du caralho.

A Coletivo Galeria fica na Rua dos Pinheiros, 493 - Entrada Free - a partir das 17h.



Escrito por Mário Bortolotto às 19h24
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TANTA COISA, MAS VOCÊ SABE QUE ELA ADORA

 

Acabou a temporada no Rio de Janeiro. Vou sentir falta. Sempre sinto falta do Rio de Janeiro. E quando vou pra lá a trabalho, gosto mais ainda. Gosto de trabalhar e depois sair pra beber. Não sou do tipo que entra em férias. Tô sempre trabalhando. E na real, acho que trabalho até quando tô bebendo. Fico ligado em tudo que tá acontecendo, nas conversas, na rapaziada subindo e descendo escadas, na garota que brigou com o namorado e entra puta da vida no bar e pede logo um duplo, no jeito que os ânimos se exaltam e na maneira que as pessoas interagem com a noite. Vou sentir falta de beber com a Paulinha até de manhã no Leblon. De ver o sol nascer no 26º andar, das noites na Pizzaria Guanabara e dos amigos cariocas que aparecem quando você menos espera. Vou sentir falta de comprar CDs na "Musicale" e das tardes assistindo "Canal Brasil" com o ar condicionado no último. Vou sentir falta do Rio de Janeiro. De todas as histórias que ouvi. O final de temporada foi bem bacana. Marcelo Paiva baixou por lá (que eu saiba, ainda não voltou). Marieta Severo e Aderbal Freire carinhosamente apareceram por lá pra se despedir. Intimei o Aderbal a trazer "Moby Dick". Na verdade já tinha intimado na estréia. Tenho que ver essa peça. O Domingos de Oliveira disse que é o melhor trabalho do Aderbal. Não duvido. E depois, é claro, fomos pra noite. Bela noite, aliás. Com Tavinho Paes, Ricardo (patrão da Alucineide) que disse pra mim: "Mario, o bêbado chegou pra sombra e falou: Porra, cê pode me acompanhar, me seguir, tudo certo, só não empurra, caralho". A Rose Abdalah (que está em dois elencos de peças minhas no Rio pro ano que vem) também apareceu, e a Bia e o Gu Ramalho que tirou uma porrada de fotos bacanas. Noite ótima. Então o Tavinho contou a história da música "Rádio Blá". Eu sempre achei que essa música era pra Monique Evans (era a lenda que rolava). A história foi a seguinte: os caras tavam bebendo e tava caindo a mó chuva. Um sujeito (desses de dois metros de altura e cinco de largura, tão ligados?) entrou no bar com uma mulher que tava muito louca. Ela tava desancando o cara. Era do tipo que gritava no meio do bar "esse aí é um corno. Ele gosta de pagar os caras pra me comerem. Ele fica assistindo. É o que ele gosta. É um corno". Ela gritava isso no meio do bar e a rapaziada sem saber o que fazer. A cena podia até ser meio tragicômica, mas ninguém ria, porque afinal o cara era grande pra caralho e a coisa podia ficar feia (acho que no bar tavam se não me engano o Tavinho, o Cazuza e o Lobão, entre outros) e ela continuava desancando o cara aos berros. Aí apareceu um desses carinhas que vendem flores. O grandão que até então não tinha falado nada e nem tomado nenhuma providência comprou uma flor e deu pra ela que desmoronou. A mulher começou a chorar cataratas do Níagara e a pedir desculpas pro cara que simplesmente a colocou no colo e saiu andando com ela no meio da chuva. Aí o Tavinho já começou a fazer a letra: "Ela adora me fazer de otário..." E foi isso. Todo mundo conhece a letra que no original em vez de "roteiro de intrigas pra Felini filmar" era "roteiro de intrigas pra Neville filmar" (o Neville em questão é o grande cineasta Neville D´Almeida, diretor de clássicos imbatives como "A Dama do Lotação" e "Rio Babilônia" e que deve filmar em breve o meu "A Frente Fria que a Chuva traz"). Ontem cheguei em São Paulo e dormi a tarde toda. Começo de noite o Brum veio aqui, bebeu do meu Jack Daniels e a gente fez quatro novas músicas. Na Jam de Domingo a gente já deve tocar em primeira mão. E o show de ontem foi du caralho. Começou às duas da manhã e foi até às cinco e meia. E a gente nem notou que já era tão tarde. 3 horas e meia de show? Porra, a gente tá os mó Bruce Springsteen. Me lembrou o show de Londrina.

Fotos desse post: de autoria de Gu Ramalho na Pizzaria Guanabara no Rio de Janeiro



Escrito por Mário Bortolotto às 16h11
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