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Atire no Dramaturgo - um blog de Mário Bortolotto


TERÇA-FEIRA (VÉSPERA DE FERIADO) TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nessa terça-feira (dia 24), aproveitando que é véspera de feriado (aniversário de São Paulo), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Club Noir (Rua Augusta, 331) a partir das 23h.

A gente toca em formato acústico.

A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Marcelo Watanabe (violões) e Fábio Pagotto (baixo)

O couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 07h32
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QUINTA-FEIRA TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nessa quinta-feira (dia 19), nossa banda "Saco de Ratos" toca no Club Noir (Rua Augusta, 331) a partir das 23h.

A gente toca em formato acústico.

A formação vai ser: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Marcelo Watanabe (violões) e Fábio Pagotto (baixo)

O couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 12h19
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Meu amigo chegou em casa, olhou pra mim e falou:

"Marião, vc tá um lixo!"

Respondi: "Não vem me bajular não, tá?"



Escrito por Mário Bortolotto às 16h33
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SEXTA-FEIRA 13 TEM SACO DE RATOS NO SESC CONSOLAÇÃO

Me parece um excelente dia pra gente fazer o nosso show no Sesc Consolação.

Nessa sexta-feira 13 às 21h.

O show vai ser no Teatro do Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245)

A banda toca completa: Mário Bortolotto (vocal), Fábio Brum e Marcelo Watanabe (guitarras), Fábio Pagotto (baixo) e Rick Vechione (bateria) 
Participação da bailarina Karina Ka 
Operação de iluminação - Walter Figueiredo 
Produção - Katiana Rangel 
O show começa às 21h -
Os ingressos já estão a venda em qualquer unidade do Sesc - R$ 10 (inteira), R$ 5 (usuário matriculado no SESC e dependentes, +60 anos, professores da rede pública de ensino e estudantes com comprovante] R$ 2,50 [trabalhador no comércio e serviços matriculado no SESC e dependentes]


Escrito por Mário Bortolotto às 22h00
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SÁBADO TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nossa banda "Saco de Ratos" toca nesse sábado (dia 07) no Club Noir (Rua Augusta, 331) em formação acústica.

A formação será: Mário Bortolotto (vocal), Ziggy (violão), Fábio Pagotto (baixo) e Rick Vechione (bateria)

O couvert é R$ 10 e não tem consumação mínima.

Deve começar tipo 23h e não tem hora pra acabar.

 



Escrito por Mário Bortolotto às 17h21
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NOITES POÉTICAS NO BROOKLIN

Eu vou falar de um tempo de loucura. Não era pouca loucura. Nós nunca fomos de fazer pouco. A gente morava no Brooklin. Eu arrumei uma casa lá por um preço maneiro e como a gente tava totalmente no osso mudamos pra lá. Era a Fernanda e eu num quarto e o Leonardo e a namorada dele no outro. A gente dividia em quatro e mesmo assim era muito foda pra pagar. E olha que o aluguel era bem barato. Foi quando eu casei. Com a Fernanda. Antes a gente namorava. A gente namorou um tempão antes de casar. E tinha a gata da namorada do Leonardo. E ela teve uma pá de filhotes. E tinha uma gatinha filha dessa outra que a gente adotou. Mas na verdade acho que foi ela que adotou a gente. Ela não saía de perto da gente e dormia no nosso guarda-roupa. E essa gatinha era muito foda. Um dia eles (os gatos - os filhotes da gata da namorada do Leonardo) pegaram uma ratazana enorme e levaram como troféu lá pro jardim. E ninguém podia chegar perto do cadáver da ratazana. Nem o Big. O Big era o cachorro. Um cachorro que parecia um ornitorrinco. Eu comecei a chamar ele de "Big". Nem lembro qual foi o motivo. Era um cachorro estranho, todo troncho. Ele foi atropelado e tinha ficado todo torto. Quando ele andava, fazia uns barulhos estranhos na barriga dele, era como se algumas engrenagens estivessem soltas lá dentro. Era o Big. Era um cachorro esquisito. Mas era legal pra caralho. Quando a gente brigava (a Fernanda e eu), ele ficava do lado choramingando. Ele ficava triste por que a gente tava brigando. Eu não aguentava ver o Big triste e me sentia culpado por ele estar chorando. Era muito foda pra mim. O Big tinha sido o cachorro de um cara drogado e acho que por causa do contato com a droga ou por causa do contato com o cara drogado tinha ficado um bocado estranho. À primeira vista era difícil gostar do Big. Era um cachorro todo torto que parecia um ornitorrinco e nutria uma paixão doentia pela gatinha que a gente gostava. E a filha da puta correspondia à essa paixão. Ele ficava esfregando o focinho na barriga dela e ela adorava. Mas o Big era foda. E tinha uma favela na rua de baixo. E meus amigos sempre iam lá buscar crack. E eu ia com eles. E eles fumavam na cozinha. Eu não fumava. Eu não gostava. Eu sempre digo que só bebo whisky e a rapaziada pensa que eu tô mentindo. Enfim, foda-se. Mas eu ia lá com eles na favela. E bebia uma cachaça no boteco da favela. E depois eles iam lá pra casa e preparavam e usavam na cozinha. E eu ficava lá com eles, vendo os caras enlouquecerem. Quem são os caras? Ah, não interessa, né? E a Fernanda e eu? A gente brigava pra caralho. Dois temperamentos muito fortes. Não era fácil. Mas o Leo e a namorada dele também brigavam muito. A polícia ia quase todo o dia lá em casa, ou por nossa causa ou por causa deles. A gente se revezava pra polícia. Mas não era o tempo todo. Tinha coisa bacana pra caralho. Tinha a gente dançando Johnny Rivers na sala, conversando e bebendo whisky (que a Fernanda descolava nuns eventos que ela produzia) até de manhã, eu lendo meus textos novos pra ela, escrevendo "Hotel Lancaster" e achando que ia ganhar uma grana num concurso de Dramaturgia Anti-Drogas pra tirar a gente daquele buraco, os churrascos com os amigos,  as brincadeiras com os gatos e com o Big, e nossas idas ao mercado. A gente nunca tinha dinheiro pra nada, então comprava muita macarrão e salada. Era o que dava pra comer. E tinha o X-Marião, lembra, Marcião? Um sanduiche onde eu enfiava tudo o que eu encontrava. E tinha a salada de alface à limão que era o único tempero possível que o Marcião preparava quando dormia lá em casa. E era bom pra caralho. Mas é claro que a gente brigava também. Brigava bastante. No Brooklin não tinha bares. Então quando eu brigava com a Fernanda, não conseguia fugir pro bar. O que dava pra fazer era andar tipo umas quinze quadras pra chegar num super-mercado 24 horas. Eu chegava lá, comprava meia dúzia de latinhas de cerveja Cintra (a mais barata - tinha Cintra e tinha Krill - Kaiser era itém de luxo), sentava no chão do estacionamento do supermercado e ficava bebendo. Alguns cachorros vagabundos sempre chegavam perto e ficavam sentados perto de mim. Quer saber? Eu me sentia bem pra caralho. Sentado no chão daquele estacionamento, bebendo cerveja Cintra e acompanhado por aqueles cachorros. São lembranças muito caras pra mim. Das melhores que tenho. Hoje, sozinho e seguro dentro da minha kitchenete, sinto muitas saudades de ter que andar quinze quadras pra beber Cerveja Cintra sentado no chão do estacionamento só pelo fato de ter brigado com a minha mulher. E eu sabia que uma hora a Fernanda ia aparecer. Quando ela estivesse mais calma. Ela sabia onde eu estava. Eu sempre ia pra lá e ela sabia disso. Não tava tentando me esconder. Ela ia parar o carro perto de mim e dizer: "Vamos pra casa, Mário, tá tudo bem". E então eu ia me despedir dos cachorros, jogar longe a última latinha de cerveja (sim, por que naquele tempo não tinha essa frescura politicamente correta de ter que jogar a latinha no lixo. Porra, é bom pra caralho jogar a latinha pela janela do carro ou amassar e chutar ela longe ou tentar acertar a cesta com uma jogada triunfal de Magic Mario) e iria embora. E ia dormir em paz, mais uma noite. Até a próxima que talvez fosse tempestuosa, ou muito louca, ou tranquila, ou seja lá do jeito que fosse, mas o importante é que era tudo di verdade. Aquelas noites poéticas do Brooklin. Noites que eu vou sempre levar comigo. Que serviram pra construir e moldar o homem que eu sou. Não que eu seja grande coisa, é claro, mas se eu for algo de bom e alguém qualquer hora dessas perceber isso, é por que foram exatamente essas histórias e vivências que me construíram. Ninguém é algo di bom ou ruim impunemente. Hoje eu tava vendo um vídeo antigo e vi várias cicatrizes no meu rosto oriundas de uma acne nervosa que eu tinha (eu devia estar com uns 30 anos). Eu sei que aquelas cicatrizes não estão mais no meu rosto. Elas sumiram (a maioria delas). Mas só aparentemente. As que importam ainda estão aqui. Me alertando, me fazendo lembrar todos os dias quando eu acordo o sujeito falho que sou. O cara errado que sempre fui. Tão troncho e inadequado quanto o Big, o nosso cachorro ornitorrinco. E querem saber? É das poucas coisas que ainda colocam um sorriso no meu rosto. Esse tipo de lembrança. De saber quem eu sou, e por que eu sou. Hoje minha amiga Aninha (ex-namorada) me escreveu e me disse que está preocupada comiga por que percebeu que ando muito triste. Não se preocupa não, Aninha. Tenho estado bem acompanhado, não se iludam. Mesmo quando estou sozinho. Eu tenho sempre estado bem acompanhado. Como naquele estacionamento bebendo cerveja Cintra e sentado no chão com os cachorros. Porra, eu tava muito bem acompanhado. Bem acompanhado pra caralho. E esse tipo de "solidão" não se negocia.



Escrito por Mário Bortolotto às 03h54
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EM BUSCA DA SAÚDAVEL INCONSEQUÊNCIA PERDIDA

Esse ano tá acabando. Particularmente foi um ano bem ruim pra mim e tudo indica que o próximo vai ser pior. Mas eu sou um cara otimista. Tô botando a mó fé em 2.013. Se eu chegar até lá, eu sei que vai ser foda. O que eu espero pra mim e pros meus amigos é que a gente volte a ter essa saudavel inconsequencia de simplesmente três amigos tocando juntos e cantando "a vida só é boa pra quem não interfere / então eu sigo de boa e pego leve". É mais ou menos isso que eu espero pro próximo ano. Vou tentar pegar leve e seguir de boa e tentar recuperar pelo menos um pouco desse espírito. Sempre me lembro de uma temporada no Rio de Janeiro pouco antes de eu levar aquelas merdas daqueles tiros, eu voltando de manhã levemente embriagado e sozinho pro Hotel Marina. De subir pro café, pegar uma xícara e simplesmente sentar perto da janela e ficar um longo tempo olhando o mar. Naqueles dias eu sentia uma espécie de paz muito grande. Eu não me sinto merecedor de muita coisa mais, mas se eu conseguir alguns desses momentos de novo, vou me sentir feliz pra caralho. Então se vc quiser um carro do ano pro próximo ano, espero que vc consiga. Se quiser ganhar na loteria, torço por você. Eu fico com uma manhã nublada da janela do café do Hotel Marina do Rio de Janeiro. Eu já fui feliz e olha que eu até sabia disso.



Escrito por Mário Bortolotto às 12h56
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A ILHA DO MEL NÃO EXISTE - VAI POR MIM

Essa foto é exatamente dessa época - notem pelo nosso físico como estamos bem alimentados - o bebum que vos escreve, Angêli, Roberto e Celsinho.

Minha filha me escreveu pedindo uma grana pra passar alguns dias na Ilha do Mel com os amigos da Faculdade. Lembrei que quando tinha a idade dela, na verdade eu já era um pouco mais velho (tinha 22), também planejei ir à Ilha do Mel. Pra quem não sabe, a "Ilha do Mel" é uma ilha que fica no litoral paranaense. Antigamente era reduto de hippies por ser um lugar totalmente selvagem. Me parece que hoje já goza de uma estrutura melhor. Mas no meu tempo era bem "wild" mesmo. Eu tava morando numa república com mais três amigos. Dois não quiseram ir. Alegaram que se era pra passar fome, eles passavam em Londrina mesmo. Bem, uma questão de ponto de vista. Eu preferia passar fome na praia. Então fomos, eu e o Roberto que sempre topava todas. O Celsinho (tio da Rosi - minha primeira mulher - na época eu ainda não namorava com ela) também resolveu ir com a gente, só que ele foi de ônibus. O Celsinho era um pouco mais velho, com emprego fixo, estudante de jornalismo, enfim, era o nosso amigo "estranho". Mas ele também tava duro, se bem que perto de nós, mesmo com o pouco dinheiro que ele tinha, podia se sentir um magnata. O Roberto e eu fomos de carona nuns caminhões do Ceasa. A gente não tinha dinheiro nenhum. Quando chegamos lá é que ficamos sabendo que tinha que atravessar de balsa pra chegar na "Ilha do Mel". Não tinha como pagar a viagem de balsa pros três e eu acabei não conhecendo a "Ilha do Mel". Até hoje tenho dúvidas se ela existe. Acho que é um só um golpe muito bem sucedido das agências de turismo. Era época de carnaval e nós não tinhamos pra onde ir. Então sugeri que a gente fosse até Matinhos. Bem, é claro que ninguém tinha dinheiro pra pegar onibus até Matinhos. Então resolvemos andar. São muitos kms andando pela praia com aquela mochila pesada nas costas. Mas a gente tentou. Depois de uns 5 ou 6 Kms, o Celsinho resolveu pagar passagens de ônibus, mas aquela despesa extra ia nos deixar no osso. Mas ainda assim era melhor do que ficar andando pela praia com aquelas mochilas nas costas. Quando chegamos em Matinhos, tentamos achar algum lugar pra dormir. Então fizemos amizade com um segurança de um bar. Ele nos deixava dormir lá dentro depois que o bar fechasse. A  gente passava o dia andando pela praia, esfomeados. Tinha um super-mercado lá. O que dava pra fazer era entrar no mercado e ficar provando aquelas promoções deles. Bolachinhas, café, etc. Eu passava pela seção de hortifruti e ficava comendo uvas. E sempre roubava algum chocolate. Só o Celsinho não tinha coragem de roubar. Compreensível. O Celsinho tinha classe, diferentemente dos dois amigos vagabundos dele. Aí teve um dia que o Celsinho entrou no mercado com a gente. Fizemos todo o tour de sempre, provamos as bolachinhas, comemos as uvas, tomamos café, mas nesse dia eu não consegui roubar nada. Sempre que eu tentava, sacava que tinha um funcionário de olho. Saí lá de dentro frustrado. Então o Celsinho levantou a camisa mostrando uma barra de chocolate das maiores e disse: "Não se preocupa, Mário, hoje eu roubei". Grande Celsinho. Ele não tinha tanta "classe" assim, ou eu diria que na hora da necessidade, foda-se a classe. Nossa única refeição era de manhã quando o Celsinho com o dinheiro dele comprava pães e queijo e a gente fazia alguns sanduíches. E tinha uma banda de rock tocando num boteco na praia (vc lembra do nome da banda, Roberto?). Fizemos amizade com os caras da banda e eles conseguiam algumas bebidas na faixa pra nós. E foi assim que a passamos os dias lá na praia. Bundando durante o dia, indo de Matinhos a Caiobá e Guaratuba, fazendo a tour do super-mercado e vendo os nossos amigos tocando no boteco à noite. Aí quando o bar do nosso amigo segurança fechava, íamos dormir. Mas teve um dia que o bar não fechou. Era carnaval e o bar tava lotado. Tava com cara de que não ia fechar. E não ia mesmo. Ia ficar aberto até de manhã, foi o que o nosso amigo segurança nos explicou. Eu tava morrendo de sono e o bar não fechava, e aquela rapaziada alegre cantando marchas de carnaval e se embriagando. Aquilo era um inferno. Então ficamos os três frustrados e saímos andando sem rumo. Fiquei sabendo depois que o Roberto descolou uma garota e até transou lá na praia. Eu simplesmente subi na carroceria de uma perua que tava parada na rua e dormi lá dentro. Se a perua tivesse ido embora, tinha me levado e eu não ia acordar. No dia seguinte, resolvemos que tava na hora de voltar pra São Paulo. A gente ia estrear em poucos dias a peça "Feliz Natal, Charles Bukowski" no Festival de Presidente Prudente. Tinha uma carona prometida pra voltar com os motoristas dos caminhões do Ceasa. Só precisava chegar em Curitiba. O Celsinho pegou as últimas economias e pagou a passagem de ônibus pra nós até lá. Ele foi direto pra Londrina. Chegamos em Curitiba e nenhum de nós dois conhecia ninguém. Roberto e eu ficamos andando pela cidade como dois maltrapilhos com aquelas mochilas nas costas e totalmente esfomeados. Era terça-feira de carnaval e mesmo que Curitiba não tenha exatamente uma tradição carnavalesca, todas aquelas pessoas felizes na rua me causavam um mal estar du caralho. A gente precisava achar um lugar pra passar a noite. A carona tava prometida pro outro dia de manhã. Então fomos até o Teatro Guaíra, armamos umas cobertas no chão da rampa do teatro e dormimos lá mesmo (alguns anos depois contamos essa história pro diretor do Teatro Guaíra e o cara não botou fé), apesar do batuque ininterrupto. Mas nós não conseguimos dormir muito. Então resolvemos ir logo pro Ceasa. Pegamos nossas coisas e fomos andando passando por aquela multidão em festa como dois zumbis mal humorados. Eu lembro das pessoas pulando em nossa volta. Eu mal conseguia olhar pra eles. Olhava pro chão totalmente desconsolado. Éramos figuras totalmente inadequadas, personagens escalados no elenco errado. Saca aqueles filmes quando o cara tá triste pra caralho, perdeu a mulher que ama, tá sem grana e fudido e é noite de carnaval em New Orleans e tá todo mundo alegre na rua e o cara anda triste e as pessoas vão esbarrando nele? Era mais ou menos assim. Quando chegamos no Ceasa, falamos com os motoristas e fomos embora, um em cada caminhão. O motorista do meu caminhão parava naqueles restaurantes míticos de beira de estrada pra almoçar. Eu não tinha nenhum centavo. Então ficava lá fora do restaurante olhando os caras comendo aqueles bifes enormes. Parecia desenho do Fred Flinstone. Meu estomago tava na sola do pé. Por isso que quando eu vejo alguém olhando de fora a vitrine de um restaurante, me dá uma aflição muito grande. Acho que restaurantes deviam ser lugares fechados, sem vitrines. É horrível pra que não tem dinheiro pra comer. É televisão de cachorro, tão ligados, né? Fiquei andando entre os caminhões e roubei duas maçãs das caixas da carroceria de um caminhão. Foi tudo o que eu comi durante a viagem. Quando cheguei em Londrina, o motorista me largou na rodovia e fui andando até a casa da minha mãe. Eu não tinha dinheiro pro lotação. Foram pelo menos duas horas andando até em casa. Quando cheguei lá e minha mãe me viu, levou um susto. Eu tava cadavérico e ia morder aquela mesa se ela não me colocasse um prato de arroz na minha frente no minuto seguinte. Eu nem conseguia falar com ela. Ela disse que eu ia ter que esperar a janta, que não tinha nada pra comer, mas que ela ia preparar. Eu não tinha como esperar. Abri uma lata de biscoitos e comi tudo o que tinha lá dentro. Quando acabei é que consegui sorrir pra ela: "Tá tudo bem, Mãe, tá tudo muito bem. E a senhora, como é que tá?"

Minha filha não precisa passar por nada disso. Vou mandar uma grana pra ela. E vou pedir pra ela tirar fotos. Eu tenho que ter certeza que essa porra dessa ilha existe.   



Escrito por Mário Bortolotto às 17h42
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HOJE TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR - ÚLTIMO SHOW DO ANO

Foto de Tuca Borba

Nossa banda "Saco de Ratos" toca hoje em formação acústica.

Na verdade é parte da banda "Saco de Ratos". Eu diria que é o Trio "Baixa Estima" com exceção do Pagotto, é claro que nunca está com baixa estima.

Mário Bortolotto (voz) Diego Basanelli (violão), Fábio Pagotto (baixo) e participação de Flavinho Vajman (gaita)

O Club Noir fica na Rua Augusta, 331

Começa às 23h

O Couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 03h55
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ONTEM CHOVEU E EU LEMBREI QUE FUI CÚMPLICE DE UM ASSASSINATO

Minha amiga me escreveu e disse que sou melancólico pá kct. Ela me disse isso por que lembrou do dia que eu contei a ela dos dias que passei em Trindade. Eu tava casado com a Fernanda e fui até lá com ela ficar uns dias numa praia razoavelmente isolada. Bem, eu não era muito de praia. Na verdade, não sou até hoje, embora às vezes sinta falta de ficar sentado na areia olhando o mar. Lembro do Festival de cinema de Fortaleza. Fiquei dois dias trancado no hotel com as cortinas fechadas. No terceiro dia quando abri as cortinas, fiquei deslumbrado com a visão. Era bonito pra caralho. Então desci até a praia e fiquei sentado na areia durante horas. Em Trindade passava a maior parte do tempo lendo o novo livro do Galera ("Mãos de Cavalo") que ele havia me mandado antes de publicar pra eu dar a minha opinião. A pousada que a gente tava havia prometido tv a cabo e eu fui crente que era verdade. Bem, eles tinham tv a cabo, mas ficava na casa do dono da pousada e a gente nos quartos só podia assistir o canal que tava ligado na casa do dono. E é claro que o dono não tinha exatamente o mesmo gosto que a gente. Eu ficava lendo. Mas aí teve um dia que choveu. A Fernanda entrou no quarto e foi deitar. Eu fui pra praia. Era assim que eu gostava. Fiquei lá embaixo da chuva durante mais de uma hora (o tempo que a chuva durou) e eu me senti bem pra caralho. Era somente eu naquela praia finalmente deserta de fato, a chuva caindo e aquele horizonte absurdo di bonito. Então me lembrei de quando era garoto e torcia pra que a chuva caísse quando eu estivesse voltando da aula. Quando ela caía, eu voltava no meio da chuva, completamente ensopado e nem a minha mãe podia ficar puta comigo. Dos jogos de futebol debaixo de chuva, de saltar poças d´agua. Do seminário de Apucarana. Daqueles dias que chovia e eu descia correndo a rua pra mergulhar na piscina. A agua ficava quente e quando a gente mergulhava, tinha aquele silencio sepulcral pra voltar de novo à tona e ver os relâmpagos riscando o céu do mesmo jeito que vi naquela praia de Trindade naquele horizonte absurdo. E então eu fiquei pensando que ela pode mesmo estar certa. Que eu sou mesmo melancólico pá kct. Ou então sou apenas um cara que tem certa obsessão por chuva. Ontem choveu e eu fiquei olhando a chuva pela fresta da cortina. As pessoas passando com seus guarda-chuvas e eu me iludindo com a idéia de estar protegido de um bem muito maior. Então fechei definitivamente a cortina e tentei esquecer. Esquecer que um dia eu desci correndo a rua e gritando que ia chover. E tinha um sapo na piscina do seminário. Eu devia ter entendido aquele crescente exército de girinos que havia aparecido. E nós, os garotos, expulsando o sapo com pedaços de pau. Nós, os garotos, matando aquele sapo que tinha enchido de girinos a nossa piscina. Devia ter também uma rã em algum lugar, sei lá. Só sei que foi num dia de chuva que nós matamos o sapo. Um dia que eu tava com muita febre e eu mergulhei na piscina e quando saí o choque térmico fez a febre baixar e eu fiquei bem. E eu nunca vou esquecer do sapo tentando fugir da nossa sanha assassina. Eu não tinha mais febre. Eu era apenas o garoto que queria matar o sapo invasor. Bem, não fui eu que dei a paulada mortal na cabeça do sapo, mas isso não exime minha culpa. Então porque eu fechei as cortinas ontem quando chovia? Porque ela falou que eu sou melancólico pá kct? Porque essas coisas tristes acontecem nos dias de chuva? Porque a cada dia que passa, ficamos ainda mais melancólicos pá kct? Hoje não é nenhuma data especial, é só o dia que eu lembrei que fui cúmplice de um assassinato. A chuva devia apenas lavar o que é ruim e não trazer de volta esse tipo de lembrança amarga. Era só um sapo tentando achar um lugar pra viver. Não estamos todos tentando a mesma coisa?



Escrito por Mário Bortolotto às 14h16
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MINHA ILHA - O EXÍLIO NATURAL DE QUEM SE METEU EM ENCRENCAS DEMAIS

Já tá virando rotina. Eu, descendo a Rua Augusta sozinho depois do show com o que sobrou da garrafa de Jim Beam. A Camila e a Gisela até pararam o carro pra me oferecer uma carona, mas achei melhor continuar andando sozinho. Tem uma trilha sonora torta na minha cabeça, uma música do Lounge Lizards que me joga pra frente e me faz passar entre os caras pedindo esmola e os boys que sobem a Augusta. Eu quase não os percebo. Me parece um presságio do que vai ser a minha vida. Esse ano que tá acabando só veio a confirmar isso. Eu sou um cara que tenho muitos amigos (graças a Deus - o telefone toca muito de madrugada), mas eu sei que sou muito sozinho, e isso não é exatamente algo que escolhi, me parece uma espécie de destino, sei lá. Já teve um tempo que eu até tentei reverter esse quadro, mas não deu muito certo. O jornalista Nelson Sato uma vez num texto prum jornal de Londrina se referiu à Rosi (minha primeira mulher) como minha "parceira de miragens". E a gente sabe que miragens não duram muito tempo. Qualquer tempestade de areia é capaz de te fazer voltar à realidade. Então do alto dos meus 49 anos e nesse final de ano eu começo a admitir que já não há mais volta. Tenho a sorte de ter minha filha em Londrina e alguns bons amigos. E é só. Tenho dois irmãos que eu amo, mas às vezes eu acho que eles ainda conseguem ser mais esquisitos do que eu. Já não conto com mais nada. E se falo isso com certa tristeza (aquela típica tristeza que vem abraçada e beijando o pescoço da Sra. Incompetência), também falo com total aceitação. Eu devia ter sacado isso há muito tempo, desde os meus 7 anos de idade, voltando pra casa sozinho, parando pra jogar figurinha (bafo), ganhando do outro moleque e levando uma surra do irmão mais velho dele que não aceitou que o irmãozinho (que começou a chorar descontrolado) perdesse as figurinhas. E então eu voltando pra casa sozinho, com o guardapó todo rasgado e sujo e tendo que mentir pra minha mãe que eu havia caído e é claro que ela não acreditou e é claro que eu apanhei de novo. Então eu lembro de ficar horas brincando sozinho no quintal, inventando um mundo pra mim e é por isso que eu hoje escrevo textos. Porque é um jeito de inventar um mundo pra mim. Acredito que pessoas que não cabem nesse mundo acabam inventando um outro pra elas. Os que não conseguem pulam de prédios, se jogam na frente dos carros ou enfiam um cano de alguma arma na boca. Ou inventam um jeito suicida de viver. O que vocês acham que eu tava fazendo há dois anos atrás? É por isso que não tenho real bronca dos caras que atiraram em mim. De certa maneira, eu sabia que já não cabia mais no mundo e estava procurando um jeito de sair dele. A maneira que eu encontrei foi drástica demais e não recomendo pra ninguém. Procurem meios alternativos. Porque na verdade, alguns como eu, tem esse privilégio de conseguir inventar um mundo paralelo. Nesse mundo eu acredito que tenho alguma real importancia. Então depois de tudo isso, fritando nesse calor senegalês insuportável que está assolando São Paulo nessa véspera de Natal, depois de ter visto toda a Segunda temporada de "Walking Dead", depois de ter preparado um sanduiche de mortadela que eu comi com coca-cola, depois de ter escrito meia dúzia de esboços de letras de blues e principalmente depois de ter cantado rock and roll com meus amigos da "Saco de Ratos" ontem à noite (não há nada que me faça um bem maior - tava falando isso pro Basa ontem - ele chegou meio invocado e quando começou a tocar, ficou leve de novo - eu sempre repito que é o que nos salva), me pego aqui, novamente sozinho olhando as capas dos meus LPs. Tem um que é especial: Rick Lee Jones no meio da rua conversando com um cara. Ele parece uma espécie de Homeless. No encarte tem uma foto dela com as pernas cruzadas. Uma foto belissima. Fico olhando a foto por longos minutos e penso que a vida que eu inventei pode não ser a melhor das vidas, mas é a que eu posso ter. E por mais que ela seja inventada (porque eu inventei, podem ter certeza disso), eu sei que há tanta verdade nela que fico sempre sem saber o que falar olhando pra foto da Rick Lee Jones, ouvindo apenas o barulho do motor do meu velho frigobar. Um homem e sua ilha. O protagonista natural que anseia por uma participação discreta no próprio roteiro. O sujeito saindo de dentro do incendio que transformou em ruínas sua casa. Saindo com uma garrafa de Jim Beam e uma música torta de John Lurie tocando na sua cabeça. Meus surtos de grandeza tiraram férias e não voltaram. Estou sozinho de novo, mas dessa vez não estou assustado. O que me assusta na verdade é essa calma filha da puta e a total compreensão de meus movimentos. Quando eu tinha 7 anos e tava voltando pra casa sozinho, com o guardapó rasgado e sujo eu ainda não entendia todo o tamanho da desesperança. Uma vez eu escrevi que "saber é solidão". Sempre quis estar errado. Infelizmente só faltava mesmo eu compreender certas coisas, o resto já tava todo desenhado e escrito em letras garrafais no mural que chamam de "destino". Não há nada mais que eu possa fazer. Então, que tenham todos um bom Natal. Não é tão ruim assim. Eu ainda tenho o que sobrou da garrafa de Jim Beam.

(A foto é de um natal de alguns anos atrás na casa da Aurea. Na foto está ali sentado meu saudoso amigo Dimas Gimenez - dedico esse texto pra ele. É daqueles amigos que sempre vão fazer falta e essa falta ainda fica mais latente nesses finais de ano tão melancólicos)



Escrito por Mário Bortolotto às 13h02
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HOJE TEM "SACO DE RATOS" NO CLUB NOIR

Nossa banda "Saco de Ratos" toca hoje em formação acústica.

Mário Bortolotto (voz) Marcelo Watanabe e Diego Basanelli (violões), Fábio Pagotto (baixo) e Rick Vechione (bateria)

O Club Noir fica na Rua Augusta, 331

Começa às 23h

O Couvert é R$ 10.



Escrito por Mário Bortolotto às 06h25
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AS FERIDAS SOMEM, MAS FICAM AS CICATRIZES

Eu não entendia como aquelas feridas apareciam. Mas elas eram bem assustadoras. Cobriam grande parte das minhas pernas. Eu me divertia arrancando as feridas. Algumas eram bem purulentas. Eu ficava em casa de calção. Achei que as pessoas deviam se acostumar com as minhas feridas ou então se manterem afastadas. Naquela época eu não tava nem aí. Gostava de ficar sozinho no porão com minha guitarra "Rei" tocando algumas baladinhas inofensivas que até então eu julgava que eram muito ácidas e perigosas. Mas aí as garotas começaram a aparecer. E eu ficava com vergonha das minhas pernas cheias de feridas. Acreditava que nenhuma delas iria querer nada comigo se visse aquelas feridas assustadoras cheias de pus e sangue. Então comecei a usar calças compridas. E às vezes quando a casca de alguma delas saía, a calça ficava grudando na perna justamente no local da ferida descascada. Era sempre constrangedor. Eu não sabia mais o que fazer e nem sabia qual era a origem daquelas feridas. Talvez a alimentação, sei lá. Bem, na verdade naquela época eu mal me alimentava. A gente não tinha dinheiro e o máximo que a gente conseguia comprar era arroz. Então a gente comprava vinagre e misturava no arroz já feito. E comia. E era tudo o que a gente comia. As exceções ficavam por conta de alguns pães que algumas garotas roubavam pra gente no mercado ou então das incursões de Valdelino Laurindo no super-mercado que ele trabalhava quando ele conseguia roubar queijo e bife e mandar pra gente pelo motorista que fazia entregas. Teve também a Garota que tinha um pé de abacate em casa e uma vez trouxe uma caixa de abacates pra gente. Passamos uma semana comendo só abacates. Por mais que eu tente imaginar uma turma de dondocas fazendo alguma espécie de máscara facial com creme de abacate numas de melhorar a pele, não consigo acreditar que uma dieta à base de abacate possa ser benéfica para um sujeito com as pernas devastadas por feridas assombrosas. Bem, Bukowski tinha o problema da Acne. Eu tinha as feridas. Não que eu também não tivesse acne. Até hoje ainda tenho. Eu imagino que seja um tipo de adolescencia tardia. Mas naquela época a acne era bem violenta. Em resumo, eu tinha uma cara detonada de acne e as pernas cobertas de feridas. Até hoje não consigo entender como alguma garota conseguia se interessar por mim. Não que houvessem tantas assim, mas graças a Deus, sempre aparecia alguma que resolvia relevar minha maltratada aparência em troca de ouvir o que tinha a dizer um garoto estranho que passava os dias ouvindo rock and roll, lendo livros e gibis e levando uma vida alternativa enquanto os outros de sua idade já estavam preocupados em construir suas vidas. Fico imaginando que deve mesmo ter alguma espécie de charme nessa situação que funciona para algumas garotas. Volto a dizer, graças a Deus. Mas aí tinha esse vizinho maluco que sempre ia lá em casa e simpatizava com a gente. Nós ficavamos sentados no chão da cozinha conversando sobre uma pá de assuntos e teve uma vez que ele perguntou das minhas feridas. Eu tava de calção e elas tavam bem à vista. Expliquei que era assim e que era chato pra caralho, mas que eu até já havia me acostumado com elas. Ele então disse que eu devia beber creolina. Que isso ia afinar meu sangue e acabar com as feridas, qualquer coisa do gênero. Bem, eu tinha 22 anos e não tinha mesmo nada a perder. Consegui um vidro de creolina e bebi ele todo. Tinha um gosto ruim pra caralho. Eu não recomendo que ninguém faça isso. Já ouvi dizer (não sei se é verdade) que já teve gente que morreu por ingestão de creolina. Só posso dizer que comigo funcionou. As feridas sumiram. Talvez nem tenha sido a creolina. Talvez tenha sido a minha fé naquele cara que eu simpatizava. Dizem que a fé remove montanhas. No meu caso, removeu algumas feridas. Elas sumiram e eu nunca mais tive feridas. A acne continuou por ali, me enchendo o saco e até hoje algumas delas ainda aparecem na minha cara cheia de cicatrizes. Mas as feridas nunca mais voltaram. Então sempre que penso nelas, lembro do meu vizinho, da gente sentados lá no chão da cozinha conversando durante horas até a esposa dele gritar pra ele voltar pra casa. Lembro das garotas aparecendo lá em casa e eu correndo pra colocar uma calça comprida pra não assustá-las. Lembro de eu ficar horas sozinho tocando guitarra no porão e isso suscitar alguma curiosidade naquelas garotas de colégio que apareciam lá em casa. Elas perguntavam pro Roberto: "Porque o Mário fica sempre lá embaixo sozinho?" O Roberto sorria e respondia: "O Mário é assim mesmo. Deixem ele na dele. É assim que ele gosta de estar". Eu lá embaixo só pensava que eu tinha algumas feridas pra cicatrizar. E isso ia acontecer um dia. Ou não. Eu tô descobrindo que algumas feridas nunca cicatrizam.



Escrito por Mário Bortolotto às 20h40
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Foto de Carla Bispo

SANGUE SECO

Eu vejo as moscas sobrevoando o cadáver ainda fresco
A trilha sonora de zumbido e fúria
O constrangimento da multidão
e os comentários furtivos
Alguém acena do outro lado da rua
Outro se atira chorando no chão
entoando uma espécie bizarra de oração
Sinto a língua na minha orelha
o sopro de um vento cálido e promissor
a correnteza do esgoto passando por baixo das minhas costas
me deixando à deriva com demônios que sorriem
como se dissessem que é chegada a hora
Não estou desesperado e nem apreensivo
Alguém mexe nos meus bolsos e liga pro 190
balbucio que sou voluntário
minhas repentinas boas maneiras
faz com que eles hesitem por um minuto
imaginando que pegaram o cara errado
Ouço a canção country
que escolhi pro meu funeral
Um anjo com cara de Lyle Lovett comanda a banda
Eles fazem um barulho infernal
Há uma mancha de café no alvo jaleco do doutor
Abro os olhos e vejo você sorrindo
Uma paz inaudita toma conta de mim
então eu durmo
surpreendentemente
ainda vivo



Escrito por Mário Bortolotto às 19h53
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NÃO É SÓ MAIS UMA NOITE NO INFERNO

Você prometeu que estaria aqui quando eu voltasse

me esperando com uma garrafa de Jack e sorvete de caramelo

Você estaria ouvindo Headcat e ia ser uma noite longa num motel de beira de estrada

A gente ia rir como nos bons tempos

com minhas piadas sem graça e meu senso de humor sem nenhum senso de oportunidade

e ficar morgando na banheira de hidro ouvindo uma trilha sonora do inferno

Você me prometeu uma vida

sem abutres voando sobre minha cama na beira do abismo

Você prometeu que haveria um Deus que cuidaria de mim

e eu fui estúpido e inocente o suficiente

pra acreditar em você

Agora quando eu olho pra essa parede vazia

apenas com o retrato da Sasha Grey na parede

é que eu entendo que o tempo todo você tava mentindo pra mim

Eu só precisava perder o medo de te perder

pra não ter mais medo de nada



Escrito por Mário Bortolotto às 17h11
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