TANTA COISA, MAS VOCÊ SABE QUE ELA ADORA  Acabou a temporada no Rio de Janeiro. Vou sentir falta. Sempre sinto falta do Rio de Janeiro. E quando vou pra lá a trabalho, gosto mais ainda. Gosto de trabalhar e depois sair pra beber. Não sou do tipo que entra em férias. Tô sempre trabalhando. E na real, acho que trabalho até quando tô bebendo. Fico ligado em tudo que tá acontecendo, nas conversas, na rapaziada subindo e descendo escadas, na garota que brigou com o namorado e entra puta da vida no bar e pede logo um duplo, no jeito que os ânimos se exaltam e na maneira que as pessoas interagem com a noite. Vou sentir falta de beber com a Paulinha até de manhã no Leblon. De ver o sol nascer no 26º andar, das noites na Pizzaria Guanabara e dos amigos cariocas que aparecem quando você menos espera. Vou sentir falta de comprar CDs na "Musicale" e das tardes assistindo "Canal Brasil" com o ar condicionado no último. Vou sentir falta do Rio de Janeiro. De todas as histórias que ouvi. O final de temporada foi bem bacana. Marcelo Paiva baixou por lá (que eu saiba, ainda não voltou). Marieta Severo e Aderbal Freire carinhosamente apareceram por lá pra se despedir. Intimei o Aderbal a trazer "Moby Dick". Na verdade já tinha intimado na estréia. Tenho que ver essa peça. O Domingos de Oliveira disse que é o melhor trabalho do Aderbal. Não duvido. E depois, é claro, fomos pra noite. Bela noite, aliás. Com Tavinho Paes, Ricardo (patrão da Alucineide) que disse pra mim: "Mario, o bêbado chegou pra sombra e falou: Porra, cê pode me acompanhar, me seguir, tudo certo, só não empurra, caralho". A Rose Abdalah (que está em dois elencos de peças minhas no Rio pro ano que vem) também apareceu, e a Bia e o Gu Ramalho que tirou uma porrada de fotos bacanas. Noite ótima. Então o Tavinho contou a história da música "Rádio Blá". Eu sempre achei que essa música era pra Monique Evans (era a lenda que rolava). A história foi a seguinte: os caras tavam bebendo e tava caindo a mó chuva. Um sujeito (desses de dois metros de altura e cinco de largura, tão ligados?) entrou no bar com uma mulher que tava muito louca. Ela tava desancando o cara. Era do tipo que gritava no meio do bar "esse aí é um corno. Ele gosta de pagar os caras pra me comerem. Ele fica assistindo. É o que ele gosta. É um corno". Ela gritava isso no meio do bar e a rapaziada sem saber o que fazer. A cena podia até ser meio tragicômica, mas ninguém ria, porque afinal o cara era grande pra caralho e a coisa podia ficar feia (acho que no bar tavam se não me engano o Tavinho, o Cazuza e o Lobão, entre outros) e ela continuava desancando o cara aos berros. Aí apareceu um desses carinhas que vendem flores. O grandão que até então não tinha falado nada e nem tomado nenhuma providência comprou uma flor e deu pra ela que desmoronou. A mulher começou a chorar cataratas do Níagara e a pedir desculpas pro cara que simplesmente a colocou no colo e saiu andando com ela no meio da chuva. Aí o Tavinho já começou a fazer a letra: "Ela adora me fazer de otário..." E foi isso. Todo mundo conhece a letra que no original em vez de "roteiro de intrigas pra Felini filmar" era "roteiro de intrigas pra Neville filmar" (o Neville em questão é o grande cineasta Neville D´Almeida, diretor de clássicos imbatives como "A Dama do Lotação" e "Rio Babilônia" e que deve filmar em breve o meu "A Frente Fria que a Chuva traz"). Ontem cheguei em São Paulo e dormi a tarde toda. Começo de noite o Brum veio aqui, bebeu do meu Jack Daniels e a gente fez quatro novas músicas. Na Jam de Domingo a gente já deve tocar em primeira mão. E o show de ontem foi du caralho. Começou às duas da manhã e foi até às cinco e meia. E a gente nem notou que já era tão tarde. 3 horas e meia de show? Porra, a gente tá os mó Bruce Springsteen. Me lembrou o show de Londrina. 







Fotos desse post: de autoria de Gu Ramalho na Pizzaria Guanabara no Rio de Janeiro
Escrito por Mário Bortolotto às 16h11
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Ontem a Folha de São Paulo comemorou os 10 anos da morte de Plinio Marcos . E me pediram pra que eu repaginasse algum personagem dele tipo "o que o personagem estaria fazendo hoje". Eu escolhi o Vado da peça "Navalha na Carne". Imaginei o Vado com 70 anos. Na Folha por um lance de espaço (eles pediram 2.500 caracteres e eu escrevi 3.300) a micro-peça foi publicada com alguns cortes que eu mesmo fiz pra evitar que cortassem por lá e em lugares errados comprometendo o fluxo dos díalogos e a pequena história que tentei contar. Aqui eu vou publicar como escrevi inicialmente. Pra quem tiver a fim de ler (em dois posts): DEPOIS DE TODO O SUMO Personagens : Vado Lúcio César (Vado está sentado na porta do bar. Está descascando uma laranja. É um velho mal encarado, por volta de 70 anos. Lucio se aproxima dele) LUCIO : Me disseram que você é o Vado. (Vado continua descascando a laranja. Não olha para Lucio) VADO : Quem quer saber? LUCIO : Eu me chamo Lucio. VADO : O seu nome não significa nada pra mim. Quem quer saber? LUCIO : É que me disseram que você podia conseguir umas coisinhas. VADO : Quem “disseram”? LUCIO : Lá dentro do bar. Eles disseram. Fala com o Vado, aquele velho mal encarado lá fora. Ele pode te conseguir umas coisinhas. VADO : Eles falaram assim, é? LUCIO : Foi. VADO : Eles me tem em alta conta. LUCIO : (sem jeito) É. VADO : (olhando pra Lucio) Que tipo de coisinha? LUCIO : Do tipo que a gente cheira. VADO : Eu cheiro muita coisa. Por exemplo, lá embaixo no meio das pernas da mulher...eu gosto de cheirar.Você não? LUCIO : Não é exatamente o que eu tava pensando. VADO : Eu só posso cheirar, sabe como é. Às vezes eu pago pra elas deixarem eu cheirar. (fica um tempo olhando Lucio sem falar nada) LUCIO : E então? VADO : Não. LUCIO : Não? VADO : Não. LUCIO : Não o que? VADO : Não tenho coisinha nenhuma. LUCIO : Mas me falaram... VADO : Eles te enrolaram. LUCIO : Você sabe onde eu posso conseguir... VADO : Não. Não consigo nem imaginar. LUCIO : É sério isso? VADO : Olha, rapaz... LUCIO : Lucio. VADO : Tanto faz. Só tô aqui fora descascando uma laranja. Não faço nem idéia do que você tá falando. LUCIO : Mas você parecia... VADO : Eu pareço um velho mal encarado. É assim que eles me vêem. E você pode achar que eu pareço o que você quiser. Não tô nem aí. (continua...)
Escrito por Mário Bortolotto às 16h06
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(...) LUCIO : Acho que você não confia em mim, olha... VADO : Você vai me contar a sua vida? Eu tenho certeza que conheço melhores. Não preciso conhecer a sua. LUCIO : Ok, entendi. Vou tentar com outra pessoa então. (Vado volta a descascar a laranja ignorando Lúcio totalmente) LUCIO : Até logo, senhor Vado. (Vado não responde. Lucio vai embora. Vado termina de descascar a laranja. Corta a tampa dela e começa a chupar e olhar para Lucio que está se afastando. César, um outro velho que é o dono do bar sai lá fora e fica olhando para Vado) CÉSAR : O que é que ele queria? VADO : Cheirar alguma coisa, parece. CÉSAR : Hummm. VADO : Ele me contou que vocês disseram que eu era um velho mal encarado. CÉSAR : Você não é nenhuma miss, né, Vado? VADO : Eu já fui um cara bacana. Tive muitas mulheres. Elas me sustentavam. CÉSAR : Eu já fui um super-herói. Salvava mocinhas indefesas de super-vilões e depois comia caviar com meu mordomo enquanto assistia meus super feitos no meu super aparelho de tv. VADO : E o que foi que aconteceu com você? CÉSAR : Nada demais. Eu envelheci. VADO : Cafetões também envelhecem. CÉSAR : Chupa sua laranja, Vado. Depois joga o bagaço fora. Não deixa por aí sujando a frente do bar, tá? (César entra pra dentro do bar. Vado termina de chupar a laranja. Fica olhando pro bagaço sem parecer saber o que fazer com ele. Deposita cuidadosamente o bagaço no banco ao seu lado. Fica olhando para um lugar indefinido com expressão também indefinida. Luz cai) - Mário Bortolotto – Primavera de 2.009
Escrito por Mário Bortolotto às 16h06
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E hoje tem "Brutal", o meu texto que dirigi a convite das garotas que tavam a fim de montar a peça. Na semana passada, a Adriana Godoy que é uma leitora aqui do blog foi lá assistir com algumas amigas. A Adriana é de BH e tava passeando aqui em São Paulo. Ela me escreveu um e-mail muito bacana depois que vou transcrever aqui: Então, foi assim. Sentamos na pequena sala do teatro e de cara um som de um blues maravilhoso. Engraçado que minhas amigas só tinham uma vaga ideia do que podia ser aquela peça. Não sabiam nada de Mário Bortolotto, nem de seus textos, nem de seu trabalho, nem de sua vida. Estavam com o folheto e leram a resenha e só. Disse a elas apenas que o texto devia ser pesado, denso como chumbo e brutal como a vida. Bem, de cara aparece o “Trolha”( é Trolha mesmo?) soltando todos os demônios, drogas e o escambau. Olhei para o lado, umas com os olhos parados; outras incomodadas e algumas paralisadas. Na realidade, a maioria ali era caretíssima, “tipo assim” osso duro de roer. Depois de um tempo, o negócio foi acontecendo e o texto ficando mais pesado. Só sei que uma foi ao banheiro e não voltou. Mas o resto ficou meio em estado de choque, meio querendo não gostar, mas gostando. É como se bebessem uma bebida amarga e depois se acostumando com o gosto. Eu, por minha vez, não queria perder nada, estava totalmente absorvida pelo texto, pela música, pelo clima. É assim que funciona essa peça. Você tem que se envolver até a alma e isso acontece ou não. E comigo aconteceu. E de uma forma doida, intensa. Minhas amigas saíram da peça meio caladas, meio horrorizadas, mas aos poucos foram se dando conta de que o “trem” estava impregnado nelas, que a voz do Peréio era mais forte que a vontade de negar, que havia ali uma verdade como uma neblina de manhã que chega e te envolve sem você se dar conta direito. Pude perceber isso quando a gente estava tomando umas cervas num bar logo depois e na conversa foram organizando as ideias e percepções e sacando as coisas, imitando as personagens “tipo assim” vendo qual é. E, mesmo que tivessem achado a peça longa demais, perceberam a jogada. E isso me bastou pra saber que tinha valido a pena, que brutal é não querer enxergar. Beijo. Adriana Godoy ______________________________________________________________________ E pra finalizar o (s) post (s) de hoje, vou deixar o link do último episódio da mini-série "Corpo Presente" do meu amigo Lourenço Mutarelli (que ontem foi assistir o nosso show lá no Aurora - antes ele acompanhou o Brum e eu numa garrafa de vinho no Planeta´s) que aliás, volta (grande notícia essa) a desenhar quadrinhos. Está preparando uma história ótima pro ano que vem. Ele me contou uma sinopse que eu gostei pra caralho. Nesse último episódio, Pereio e eu temos que fechar a bagaça. Taí o link pra quem quiser ver: http://www.teatroparaalguem.com.br/casa/index.php?option=com_content&view=category&layout=blog&id=3&Itemid=7#vinte E agora vou assistir os novos episódios de Supernatural que o Wiltinho gravou pra mim (santo Wiltinho). Ontem terminei de assistir um filme fudidaço que eu recomendo com entusiasmo. Pra variar o título brasileiro desestimula. É "Guerra ao terror". Que merda, né? Na verdade, o título original é "The Hurt Locker" . É a história de um grupo de soldados no Iraque especialistas em desarmar bombas (por isso minha obsessão atual com esse tema). Há uma cena fudida que o cara tem que desarmar um homem bomba que está chorando dizendo que amarraram a bomba nele à força, que ele tem 4 filhos e o escambau. Foda. O soldado chega pra ele apontando a arma e diz: "Você sabe que pra mim era muito mais fácil desarmar essa bomba se eu te matasse, né?" Há várias cenas impactantes e algumas poéticas pra caralho. Em determinado momento do filme, os três soldados que trabalham juntos no "agradável" servicinho de desarmar as bombas tomam um porre ficam levando aqueles papos de homens quando tão bêbados (pra nós é sempre a melhor parte da noite). Aí um deles resolve a abrir a mala que o Sargento guarda embaixo da cama. Dentro da mala há vários mecanismos de bombas que o sargente desarmou. Uma espécie de coleção de souvenirs macabros. Então o outro pergunta: "Porque você guarda isso?" Ele responde: "Gosto de guardar coisas que quase me mataram". Então o soldado acha duas alianças entre os mecanismos e pergunta: "E isso, o que é?" O Sargento responde: "São duas alianças, não tá vendo?" O soldado intrigado insiste: "Sim, mas e daí? O que isso tem a ver?". Ele então responde: "Pois é. Gosto de guardar coisas que quase me mataram".
Escrito por Mário Bortolotto às 15h52
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SACO DE RATOS - HOJE É diferente. Só me avisaram agora. Como essa quinta-feira é véspera de feriado, o Café Aurora funciona como em finais de semana. Vai rolar shows com as bandas da casa. Então o preço do ingresso é outro. 12 paus e 10 na lista. Porque serão várias bandas desde às 23h30. Duas bandas no palco de cima e mais duas no palco de baixo. A gente (da "Saco de Ratos") entra às 2 da manhã no palco principal. E no cardápio rola como final de semana; caipirinha dupla (paga uma, leva duas). Só fui avisado agora, então por isso que tô escrevendo só agora também. Na verdade, vai ser bacana. Como é feriado na sexta, quem tiver a fim de ver o nosso show, chega lá a partir das 2 da manhã. "SACO DE RATOS" NO CAFÉ AURORA 
Saco de Ratos é : Mário Bortolotto : Vocal / Fábio Brum e Marcelo Watanabe (guitarras) / Fábio Pagotto (baixo) / Rick Vechione (bateria) A gente toca a partir das 2 da madruga - porque sexta é feriado O Café Aurora fica na Rua 13 de Maio, 112 (Bela Vista). http://www.myspace.com/sacoderatos
Escrito por Mário Bortolotto às 06h53
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E O RIO DE JANEIRO CONTINUA INDO Eu mando mensagens pra pessoas que gosto de madrugada. Continuo fazendo isso. Foi o que fiz nessa madrugada carioca. Fico assim quando estou bêbado de madrugada. Querendo me comunicar com as pessoas que gosto. Pelo menos as que eu acredito que não vou incomodar. Gosto de ser assim. Eu sei que algumas estão dormindo e nem viram a minha msg. Algumas me respondem carinhosamente. Outras até me ligam de volta no meu celular com chip carioca e ficam um tempão conversando comigo. Bom saber que não tô sozinho quando preciso delas. Converso, ouço elas falarem, digo coisas que pelo menos pra mim tem o mó sentido. Era pra eu ter ido dormir há mais de cinco horas. Todo mundo foi. Até a Paulinha. Eu fiquei com sono, bebendo. E mando mensagens pra pessoas que gosto de madrugada. Acho que o celular é uma invenção muito bacana. Aproxima as pessoas que se gostam. Fiquei na Pizzaria Guanabara conversando com a Bia, a Camila e o Ricardo. A Camila foi embora. A gente continuou. O Ricardo me conta que tem uma empregada que se chama Lucineide. O apelido dela é "Alucineide". Saca só o naipe dela. O Ricardo conta que falou pra ela : "Alucineide, pega uma garrafa de coca pra mim na geladeira". Lucineide foi e voltou: "Olha, seu Ricardo, eu fui lá. Tem garrafa deitada, de pé, mas "di coca" não tem não" Genial. Aí Ricardo perguntou pra Lucineide: "Ei, Alucineide, qual é a distancia de Copacabana até o Leme?". E a Lucineide respondeu: "Olha, seu Ricardo, a distancia de Copacabana até o Leme eu não sei não. O que eu sei é que do Leme até Copacabana deve ter tipo uns 10 Km". É por isso que eu demoro pra dormir. Já é de manhã, o sol tá rachando lá fora. Eu tenho a praia do Leblon pra ir caminhando arrastando meus coturnos na contra-mão dos saudáveis praticantes de jogging. Gosto disso. Como prêmio tenho um café da manhã de hotel cinco estrelas. A vida pode ser muito boa, meu camarada. Não deixe nenhum sucida maluco te convencer do contrário. E não pensem que eu estou aqui falando de felicidade. Eu não falo desse tipo de bobagem. Ando insistindo nisso. Tô falando de serenidade. Tô falando de voltar pro hotel andando sob o sol causticante dessa manhã do Leblon. Tô falando de tomar um café da manhã olhando o mar pela janela do restaurante. Tô falando de saber que há pessoas queridas que respondem mensagens de um bêbado impertinente de madrugada. Tô falando de algo tão fácil de sacar, mas que ninguém percebe porque tá todo mundo com pressa demais de ser feliz, de ser bem sucedido, de ficar rico ou qualquer merda dessa. Você vão por aí que eu vou por aqui, falou? Talvez a gente se trombe qualquer hora dessas, mas se não acontecer, tá tudo bem. Tá mesmo tudo muito bem. Bom dia pra vocês. ______________________________________________________________________ HOJE - ÚLTIMO DIA 
_____________________________________________________________________ QUINTA-FEIRA "SACO DE RATOS" NO CAFÉ AURORA 
Saco de Ratos é : Mário Bortolotto : Vocal / Fábio Brum e Marcelo Watanabe (guitarras) / Fábio Pagotto (baixo) / Rick Vechione (bateria) Ingressos à R$ 5 - Cerveja em lata à R$ 3 A partir das 23h30 O Café Aurora fica na Rua 13 de Maio, 112 (Bela Vista). http://www.myspace.com/sacoderatos
Escrito por Mário Bortolotto às 07h03
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MEUS PROBLEMAS NÃO SÃO MAIORES DO QUE OS SEUS 
Ok, sempre há pessoas com problemas maiores do que nós. Do garoto parado na frente do bar do bilhar esperando ansiosamente por prometidos 2 reais pra mais uma pedra de crack ou de alguém muito querido chorando por alguém que é fundamental pra ela. Sempre há pessoas por aí com problemas bem maiores do que nós. Foi pensando nisso que eu fiquei jogando bilhar hoje de parceria com o Capeta (não é uma figura de linguagem, é o apelido dele - é um ótimo sujeito - quem diria, né? O Capeta é um ótimo sujeito). Conversava um pouco antes com a Fernanda na Mercearia e ela me dizia como todos nós somos figuras bélicas. Concordei com ela, mas disse que lúcidamente devemos nos obrigar a evoluídamente evitar esse animo aguerrido que temos, inclusive para nosso próprio bem. E jogando bilhar sereno como um monje em alguma região fria da China (era assim que eu tava hoje - juro pra vocês - e olha que meu parceiro era o Capeta - talvez até por isso mesmo) fui notando como os amigos estavam a ponto de se detonarem, fui sacando os pinos das granadas a um espirro de serem puxados e fui embora do bar agora há pouco com uma sensação muito estranha do tipo "já vi esse filme antes" e eu já fui o protagonista dele. Não tenho boas lembranças disso. Hoje eu só quero ser o cara que desarma bombas. É esse cara que eu ambiciono ser. Fiquei pensando nos rumos que minha vida tomou. Sempre fui um durango notório. Mal tinha dinheiro pra comer um cachorro quente. Lá em Londrina tinha um tempo que a gente meio que mendigava um passe de ônibus pra voltar pra casa (eu morava no Jardim do Sol) e aí quando eu conseguia o passe, trocava por um cachorro quente (sem refrigerante) e voltava a pé pra casa. Só lia livros na biblioteca. Não tinha dinheiro pra comprar livros. Passava tardes inteiras na biblioteca. Depois apareceu uma gang de amigas que roubavam livros pra gente. Elas diziam: "Mário, qual livro você quer?". Eu dizia um título e no dia seguinte elas me presenteavam com ele. Mas elas roubavam de livrarias, nunca de bibliotecas. Eram ótimas garotas. Elas também roubavam vinho e pão do supermercado. Mas porque mesmo tô falando isso? Ah, sim, é porque tava explicando o quanto eu era durango. Eu não tinha dinheiro pra comprar discos, então gravava músicas que eu gostava em fitas cassete e andava orgulhoso com elas no bolso da minha calça. Eu tinha uma calça velha do exército que peguei do meu irmão que serviu o tiro de guerra e ela tinha bolsos nas pernas. Eu adorava aquela calça e aqueles bolsos e sempre andava com fitas cassete nos bolsos. A primeira fita de blues mais rústico que tive foi o saudoso Eddy Teddy (do Cokeluche) que gravou pra mim. Era uma seleção impecável. Acho que tenho essa fita até hoje. Muito tempo se passou. Eu mantenho um padrão de vida baixíssimo. Não preciso de muito dinheiro, graças a Deus (grande Wally Salomão). Nunca quis subir meu padrão de vida. Eu raciocino assim: Se eu subir meu padrão de vida, vou ter que ganhar mais dinheiro. Pra eu ganhar mais dinheiro vou ter que trabalhar ainda mais e vou ser obrigado a fazer inclusive coisas que eu não curto muito apenas para manter o tal padrão. Então fico aqui embaixo mesmo. Eu tenho algumas contas pra pagar e tenho que mandar dinheiro pra minha filha quando ela precisa. No mais gasto mesmo meu dinheiro em livros, CDs e Dvds. Em resumo, hoje consigo comprar os livros que não podia quando era jovem. O problema é que não está me sobrando tempo pra ler os livros que compro. Então na verdade eu tenho que trabalhar o menos possível pra ficar mais tempo em casa e me dedicar ao que realmente gosto de fazer na vida que é ler, ouvir música, assistir filmes e a partir disso tudo (aliada a minha vida boêmia imprescíndivel) escrever. Escrever muito. É isso que realmente eu gosto de fazer. E foi pensando nisso, sereno como um monje em algum lugar muito frio na China e evitando qualquer comportamente bélico que me é inerente (tô ligado) que eu entrei em minha kitchenete hoje. É por isso que ando recusando alguns trabalhos que me oferecem como uma oficina de dramaturgia de dois dias no interior de São Paulo (e eles iam me pagar uma grana bem legal). É que eu não quero trabalhar assim. Tá tudo certo. Eu levo uma vida modesta e não sou nem um pouco ambicioso. E é com esse espírito que tô escrevendo esse texto. É com esse espírito que vou daqui há pouco pro Rio de Janeiro. Talvez eu veja o sol nascer de novo lá do 26º andar do Hotel Marina (logo eu né? Aquele sujeito miserável que mendigava um passe de ônibus e trocava por um cachorro quente. Tão vendo só como subi na vida? Cheguei no 26º andar do Hotel Marina) ou talvez a gente fique simplesmente bebendo na praia enquanto os saudáveis cariocas praticam seu saudavel jogging. Tanto faz. O que importa é que onde estiver vou ficar pensando nisso. Há sempre pessoas com problemas muito maiores do que os meus. E isso não é uma apologia do conformismo não. É só uma nota de louvor àqueles que são desprovidos de grandes ambições. Minha vida não é tão importante assim. Nem pra mim ela é. Então porque teria que ser pra alguém? Não é mesmo? __________________________________________________________________ Hoje no Rio de Janeiro ùltimos dois dias da temporada 
__________________________________________________________________ E em São Paulo (dois ótimos shows com duas ótimas cantoras - pra você escolher) 

Escrito por Mário Bortolotto às 07h44
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STAND BY ME 
Vista da minha janela do aconchegante Hotel Beira Rio A estrada tava limpa à nossa frente. A Van corria livre na rodovia. Acabei de ler o livro do Bukowski e finalmente comecei o "Visões de Cody" (presente do meu amigo Cassiano). Entre um trecho e outro do livro, escrevia alguns versos de poesia ou de letra de música. Gosto da estrada. Sempre gostei. E a nossa estratégia deu certo. A idéia era acordar cedo e pegar a estrada antes do almoço quando ainda não houvesse perigo de congestionamento. Deu certo. Eu tô totalmente pregado essa semana. Voltei do Rio, fiz show, peça, e já viajei pra Piraju pra montar e operar a técnica do espetáculo "Curta-Passagem". 4 horas na estrada. Até tentei descolar um substituto pra mim, mas não rolou. E no fim foi bom. Gosto de viajar com essa rapaziada. Carcarah, Eldo, Dani, Carlinha e Fernanda Mandagará que a gente chama carinhosamente de "Mandagoró". É tranquilo. A gente se diverte. E a Dani que é a produtora deixa todo mundo a vontade. Compra cerveja e a gente vai bebendo durante a viagem. Ninguém se estressa. Eu tava totalmente virado de sono, mas tava tudo certo. E Piraju é uma cidade bacana pra caralho. Recomendo a quem quiser passar um fim de semana tranquilo, sozinho ou acompanhado. Ficamos no Hotel Beira Rio às margens do Rio Paranapanema. Esse rio tem a ver com minha infancia. Eu tava no seminário em Ourinhos. Tinha 13 anos de idade e a gente (um grupo de moleques do seminário) resolveu ir até Salto Grande (22 Km de Ourinhos) pela linha de trem. Tipo "stand by me" mesmo. Foi uma puta viagem bacana. Quando somos jovens, temos todo o tempo do mundo. Acho que o Julio Reny já disse algo parecido. Salto Grande também fica às margens do Rio Paranapanema. 34 anos depois reencontro o velho Rio e à noite ficamos bebendo Jack Daniels direto da garrafa (cortesia da gentilíssima Dani) sentados à beira do Paranapanema (foto aí de cima), com uma música bate estaca que vinha de algum clube ali perto, conversando e falando bobagem de uma maneira tranquila que me fez um bem du caralho. Tava mesmo precisando disso. E hoje depois de um ótimo café da manhã, voltamos pra São Paulo, com a estrada limpa. Voltei lendo Jack Kerouac e fazendo anotações e esboços de poemas e letras de música. Foi um ótimo final de semana. Na próxima a rapaziada vai pra Fernandópolis e Monte Alto. Eu queria muito ir, mas acho que vai ser humanamente impossível. Sei que vou estar ainda mais pregado que essa semana. E eu não sou mais nenhum garoto. Meus 47 anos gritam nesse momento. A Dani vai tentar conseguir um substituto pra mim. E eu vou tentar ficar em São Paulo descansando, se bem que devo admitir que descansei muito mais indo pra Piraju do que ficando em São Paulo, mas enfim...voltamos e já fizemos nossa jam de Domingo que foi legal pra caralho. E é lógico, encerramos a noite jogando bilhar e bebendo Black Label. Acabei de entrar em casa. Não estou pensando em muita coisa nesse momento a não ser que a vida não me parece tão ruim quanto na semana passada e eu sinceramente acho que só vai melhorar daqui pra frente, e depois vai ficar ruim de novo por causa de algum motivo qualquer, ou por causa de vários, ou simplesmente porque a gente resolveu cair na real, enfim, o velho ciclo. Só temos que ter total noção de tudo o que está acontecendo ao nosso redor e não ficar se iludindo. À beira do Rio Paranapanema, enquanto bebia Jack Daniels com meus amigos, fiquei pensando nisso. Desejo dias melhores pra todos nós. E se eles não vierem, não liga não, faz parte da encrenca que Deus aprontou pra gente. E que eu saiba, Ele ainda não abriu um setor de reclamações. Então contente-se com a sua inevitável infelicidade. Já estamos todos bem grandinhos pra saber que o oposto desse negócio aí é só um troço que as agencias de seguro tentam vender pra gente, né? 
Eu tô dizendo que coisas bizarras acontecem. Essa foto eu tirei ontem na nossa Jam de Domingo. Ayalla providenciando a mamadeira do Linguinha.
Escrito por Mário Bortolotto às 07h26
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HOJE 
Escrito por Mário Bortolotto às 13h21
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MEU SALVO CONDUTO PELA TERRA DEVASTADA Na quinta-feira, meu amigo Lourenço Mutarelli foi assistir o nosso show lá no Café Aurora. Ele sempre pede pra gente tocar "Gilete" que é uma parceria minha com meu amigo Bernardo Pellegrini. Ele gosta muito dessa música e a Paulinha Cohen também, tanto que ela quis cantar no primeiro show que ela fez lá na "Rio Verde". Fiquei lembrando quando fiz essa parceria com o Bernardo. Ele me encontrou na frente do Bar do Jaime lá em Londrina que era um lugar onde a gente bebia todas as tardes. Era tipo o nosso Happy hour bagaceira. A gente ficava sentado nas escadas que ficavam de frente pro bar que era frequentado basicamente pelo nosso Grupo e por jornalistas da Folha. Aí um dia o Bernardo me pediu uma letra e então lembro que comecei a escrever ainda no bar e fui terminando a letra rabiscando em vários guardanapos ao longo daquela noite em vários bares por onde a gente passou. O velho tour etílico, sabem como é. Escrevi : "Corta o meu barato nas noites de ferro / corta a minha doze em tiras de metal / bebe o sangue do pulso das meninas / depois passeia chapada / esperando o final / Gilete / na bolsa das putas / Gilete / nos olhos dos loucos / Gilete / nas línguas das virgens / Gilete / no sangue de poucos / Corta o meu barato / nas noites de vício / leva mil baladas / pra segurar este hospício / lava com whisky os pecados dos meninos / depois convoca a alcatéia pra um ensaio geral". Na verdade acho que a letra tinha um negócio ou outro diferente que não lembro o que é. Era o tempo que a gente comprava whisky "Black Jack" à R$ 4. Vocês imaginam o estrago que esse negócio fez ao meu pobre fígado. Era o tempo que eu andava por Londrina e achava que o mundo tava me devendo alguma coisa. Tipo "O Cobrador" do Rubem Fonseca, tão ligados? A gente terminava a noite no Valentino (bar mítico da cidade na época) e eu costumava andar com uma fita cassete no bolso da calça. De um lado tinha Tom Waits e do outro sua mulher (acho que já era ex) Rick Lee Jones. E eu pedia pros caras do Valentino tocarem essa fita e a gente ficava lá bebendo e ouvindo Tom Waits. E eu ficava tentando encaixar a letra de "Gilete" nos rosnados e grunhidos do Tom Waits. Naquele tempo eu ainda não sabia de toda a amargura, mas já previa tudo o que ia acontecer. A gente acabou de gravar essa música no CD da "Saco de Ratos" cuja capa é do Lourenço Mutarelli que gosta muito dessa música. E o Bernardo Pellegrini tem outra parceria comigo que é na verdade uma letra que ele fez a partir de citações minhas na peça "A Lua é minha" (que tá em cartaz atualmente às quartas feiras no Satyros 1) e que ele me mostrou na última vez que a gente foi pra Londrina. É um bluesinho fim de noite total, muito bonito. Espero que ele grave e mande pra mim pra gente poder tocar com a banda. Estou escrevendo isso tudo pra falar desse negócio maluco que é você ficar inspirado numa situação, numa mulher ou nos amigos, ou no que quer que seja pra escrever. É o que me salva. É o que tem me mantido vivo durante todos esses anos. Não é a bebida ou a vida boêmia que levo. Não é o "amor" ou o que chamam de "amor" por aí. Na verdade isso só destrói, né? É o que consigo criar a partir disso. Esse é meu salvo conduto pela terra devastada. ____________________________________________________________ Agora tenho que dormir. Vou pra Piraju de manhã. Vou lá montar e operar a técnica da peça "Curta-Passagem". Até tentei arrumar alguém pra me substituir já que tô pregado por causa dos últimos dias. Mas não consegui ninguém. Então vou ter que ir. É claro que não vou conseguir dormir. Vou ficar fritando aqui na kitchenete tentando ver algum filme dublado na TNT pra ver se pego no sono pelo menos um pouco. Mas Domingo (amanhã) tô de volta e a gente vai fazer aquela jam com churrasco lá na Coletivo Galeria. E talvez a gente toque "Gilete" em homenagem ao Lourenço Mutarelli, ao Bernardo Pellegrini e à Paulinha Cohen. E eu não vejo a hora de tocar "A lua é minha". 
Domingo a partir das 17h > Jam com Churrasco > Mário Bortolotto (vocal e violão), Basa (violão) e Flávio Vajman (gaita) > Presença aguardada : Fábio Brum e todos os amigos que ficarem a fim de aparecer, tocar e cantar com a gente. Entrada free > só paga o que consumir de churrasco e cerveja. A Coletivo Galeria fica na Rua dos Pinheiros, 493.
Escrito por Mário Bortolotto às 04h55
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E o meu amigo Ricardinho Carlaccio também escreveu sobre a peça: 
Sempre desconfiei da palavra amor. Nunca gostei dos hippies por conta do slogam “Paz e Amor”. Certa vez uma garota perguntou pro Marião como ele definia o amor e ele foi curto e grosso como manda a lei do velho oeste e disse: “amor é aquela paçoquinha que eu comia quando era garoto.” Ironia Du caralho, por essas e outras curto os textos do Mário Bortolotto e sempre que posso vejo suas peças. E a última que vi foi Brutal, a peça fala sobre uma tal de Legião do Amor liderada por Estevão, um cara que tem sua própria interpretação do Antigo Testamento. Uma espécie de Skin Head sem a cabeça raspada e suspensórios, um tipo que pode estar ao nosso lado na fila do supermercado e a gente não vai sequer perceber o filho da puta. Esse naipe de cara se propaga por aí, a cada dia pinta uma igreja evangélica na esquina pra tomar a grana e a alma de algum otário, todas pagando de legião do amor ou legião da boa vontade, o que dá na mesma merda. Todos prometendo a salvação, todos o mesmo embuste, como pastores que comem as crentinhas através de seus discursos messiânicos. Como diz a pesonagem Sol magistralmente interpretada pela Érica Puga: "acho que é solidão, né, cara? A gente precisa se agarrar em alguma coisa. Qualquer tábua de salvação tá valendo". Existem vários níveis de solitários buscando Deus de maneira equivocada. Eu sempre desconfiei daqueles que esmolam companhia, esses são capazes de pagar qualquer preço na hora do desespero. E nessa hora cada um se agarra no guru que pode ou merece. (Ricardo Carlaccio)
Escrito por Mário Bortolotto às 21h32
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Essas são fotos do evento que aconteceu durante as Satyrianas lá na "Rio Verde". Foi o "Satyrianas Lado B". Foi bacana. Fiz uma apresentação com o Basa e o Flavinho. Tocamos algumas músicas lá. Depois joguei bilhar com a Kiki e participei cantando "Abre essas pernas" com minha amiga Nena Cerello e "Gilete" com a Paulinha . Foi divertido. As fotos e toda a arte gráfica (muito fudida, por sinal) do evento são de Patricia Cividanes. E estão todas no blog "Antro Exposto" : http://antroexposto.blogspot.com/ ___________________________________________________________________________ Ando muito cansado. Meio sem saco pra quase tudo. Ando perdendo a paciência muito rapidamente. E sei que isso não é bom. Às vezes me dizem que eu tenho uma paciência de Jó e eu sei que é verdade. E que isso também não é bom. Cola muito mala e eu acabo fazendo valer o apelido que o Pereio me deu. Ele falou assim: "Mário, você um cara bacana. Você não é um mala, mas você é uma esteira". Mas ficar com o pavio curto o tempo inteiro também não é legal. Às vezes é preciso mesmo se retirar. Ir embora do bar mais cedo. Ir embora da vida mais cedo. Ontem por exemplo, era um dia que eu tinha que ir embora. Depois do show eu tinha mais era que ir embora ficar sozinho, dormir, bater uma punheta, ler um livro, ver um filme antigo, qualquer merda. Eu não era boa companhia pra ninguém. Tava sem paciência com os amigos e isso é péssimo. O que sobra é o show bacana que a gente fez ontem à noite. Isso sim é o que há de melhor. Fiquei muito feliz com o show. Mas devia ter ido embora pra casa logo depois. Ontem tive a certeza que é impossível jogar bilhar desconcentrado, com música alta e muita gente falando o tempo inteiro. Mas acho que fui embora (não exatamente na hora certa) num momento mais ou menos tranquilo ainda. Alguma coisa boa tô conseguindo fazer. Vou deixar aqui um texto do meu livro "Gutemberg Blues" que o meu amigo Fábio Brum gosta muito e me pediu pra eu postar aqui. É um texto que escrevi para o guitarrista Roy Buchanah . GUITAR HERO Naquela noite de agosto, os cachorros vagabundos uivavam melancólicos avisando que o mais seguro era ficar em casa enroscado em uma garotinha trêmula, bebendo um vinho devagar ou assistindo tevê. Mas Roy Buchanan, guitarrista fantástico, lenda viva do blues branco, não era o tipo de cara que conseguia ficar em casa numa noite de agosto vendo as popices dos clips monótonos da tv. Os uivos dos cães vagabundos eram convites irresistíveis para cair fora, por isso Roy, 48 anos, cara inchada, cansada, fumou mais um pouco do seu cachimbo e se levantou do sofá, desligou a tevê, cobriu a garotinha que na verdade nem era tão jovem assim com um cobertor velho de flanela, vestiu a jaqueta amarrotada e saiu pra rua. Ia andando e esfregando as mãos enquanto sussurrava uma oração que o seu pai havia lhe ensinado há muito tempo. Não se lembrava muito do seu pai, mas aquela oração havia se instalado na sua cabeça de uma maneira inexplicável, às vezes enquanto tocava a sua guitarra, aquela oração aparecia e então ele começava a rezar. Roy Buchanan estava rezando quando entrou no bar, encostou no balcão e pediu o primeiro whisky. Ele continuou rezando quando já não conseguia distinguir os rótulos das garrafas. Só parou de rezar quando o jogaram no banco traseiro daquele carro com sirenes. Ele não conseguia entender o que estava fazendo naquela cela fria da Virginia, naquele 14 de agosto de 88. Foi rezando que ele amarrou a jaqueta em torno do pescoço. Os cães pararam de uivar. O seu companheiro de cela, um outro bêbado maltrapilho, ainda jura que ouviu aquele sujeito rezar antes de se enforcar. Não sabe precisar ao certo quais eram as palavras. Talvez algo como Thank you, Lord. __________________________________________________________________ E hoje tem "Brutal". Eu sempre aviso. Não é uma peça fácil. Ela é propositalmente pesada, soturna, lenta e é longa também (são quase duas horas), então só vai lá se tiver a fim de encarar. Não fica enchendo o meu saco falando coisas do tipo: "Ah, a peça é um pouco longa, né? Será que não podia cortar um pouco?". Que inferno. Tem peça pra caralho em cartaz na cidade, vai assistir outra. Essa é assim e ponto final. E não bebam cerveja antes do espetáculo. Ficam com vontade de mijar, tem que sair e depois voltar no meio da peça. E isso atrapalha pra caralho. O Zé Celso faz peça de seis horas, mas lá pode tudo. Pode sair, volta, beber, é um ritual, é dionisíaco e o escambau. Aqui não é. Não tem ritual nenhum. Nem gosto que fiquem falando "merda" um pro outro antes do espetáculo. Aliás, não tenho saco pra todo esse ritual teatral. Pra mim é tudo rock and roll. E essa peça é um tijolo, maluco. E é assim que eu gosto dela. Se ficar diferente, paro de gostar. Fico em casa lendo HQ. Vou ganhar muito mais. Tá tudo certo, rapaziada. Ninguém precisa assistir. Fiquem lá fora bebendo e a gente conversa depois. Tá tudo bem. Mesmo. Mas se tiverem a fim de encarar, vou achar muito legal. Mas não digam que eu não avisei. 
Escrito por Mário Bortolotto às 15h37
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HOJE TEM "BRUTAL" 
Escrito por Mário Bortolotto às 07h51
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HOJE TEM "SACO DE RATOS" NO CAFÉ AURORA 
e o Mutarelli acabou de ligar dizendo que vai hoje. Isso sim é uma boa notícia. Saco de Ratos é : Mário Bortolotto : Vocal / Fábio Brum e Marcelo Watanabe (guitarras) / Fábio Pagotto (baixo) / Rick Vechione (bateria) Ingressos à R$ 5 - Cerveja em lata à R$ 3 A partir das 23h30 O Café Aurora fica na Rua 13 de Maio, 112 (Bela Vista). http://www.myspace.com/sacoderatos __________________________________________________________ Queria escrever mais, mas preciso dormir um pouco. A volta do Rio de Janeiro foi a mó saga. Tive que acordar às 7 da manhã (isso porque fui dormir milagrosamente às 4). Fomos pro Santos Dumont e ficamos lá o mó tempão. Os vôos tavam atrasados. Mó balbúrdia. Até encontrei o Fagundes no Aeroporto que me disse que no dia anterior teve até que desistir de embarcar, mas hoje ia ter que vir de qualquer maneira, já que faz espetáculo por aqui. Aí depois avisaram que a gente ia ter que ir pro Galeão porque o Santos Dumont tava sem teto. Mais duas horas esperando e conseguimos embarcar. Mais 50 minutos dentro do avião esperando autorização pra decolar e finalmente conseguimos voltar pra São Paulo. Depois mais 40 minutos de Guarulhos até minha casa. Tô destruído. Vou dormir um pouco pra me recuperar pro show de hoje à noite. Té logo mais.
Escrito por Mário Bortolotto às 15h47
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EU VI A LUZ E AS FOTOS DA FERNANDA YOUNG 
A gente tava dentro do carro e o locutor na rádio dizia: "Deve faltar água nos próximos dias. O apagão vai fazer grandes estragos" e no momento seguinte emendava: "E amanhã vamos todos torcer pelo Fluminense". A gente ria dentro do carro e lembrava que estamos mesmo no Brasil. Eu tava jogando poquer no camarim do teatro (a gente sempre faz isso durante a peça - o Alex e eu terminamos nossa cena e quando começa a cena da Paulinha e do Hugo, armamos nossa mesa de poquer - costumo brincar que ganho mais dinheiro no poquer do que com a bilheteria da peça) quando as luzes oscilaram e apagaram de vez. Lá no palco (com luz de emergência que proporcionava uma agradável penumbra) os atores continuaram com a peça a pedidos da platéia. Quando a peça acabou, o Rio de Janeiro estava no escuro. Depois a gente descobriu que era um lance nacional e que até o Paraguai tinha mergulhado na escuridão. Voltamos pro Hotel Marina que tem gerador próprio e ficamos por lá. Os caras preferiram comer em seus quartos. Paulinha e eu fomos pro Restaurante do Hotel e pedimos logo uma garrafa de vinho. Da janela do restaurante, dava pra ver uma praia bonita e sinistra. Ficamos conversando enquanto alguns amigos ligavam e davam notícias de São Paulo e de outros lugares do Rio de Janeiro. E então a luz voltou e é claro que Paulinha e eu fomos pro Bar. Continuamos no vinho. Encontramos alguns amigos e na volta pro hotel ainda ganhei a Playboy com a Fernanda Young. Gosto da Fernanda. Gosto dos livros dela. E a conheci quando fiz a trilha pra peça "A idéia" (texto e atuação da própria). É uma ótima garota, por mais que sua persona televisiva às vezes tente desmentir essa minha afirmação. Gostei muito das fotos (do ótimo Bob Wolfenson), especialmente de uma em que ela está deitada com um livro do Bukowski entre suas pernas. Justamente o livro que eu assino a orelha. Cool. Paulinha foi dormir e eu subi pro terraço do Hotel Marina (26° andar). Lá de cima fiquei olhando aquela mesma praia que ontem tinha achado sinistra. Ela tava bonita pra caralho com aquela luminosidade filha da puta das manhãs cariocas. Então eu pensei que a vida nem sempre vai nos proporcionar manhãs como essas. Acho que o futuro vai ser sinistro e escuro como a noite de ontem. Então fiquei lá muito tempo olhando as gaivotas que pareciam urubus (ou será que eram mesmo urubus?) voando perto da minha cabeça. Vai faltar água, talvez o Fluminense vença hoje (o que deve deixar o Fausto Fawcett e o Carcarah bem felizes), mas por enquanto tenho esse cenário deslumbrante pra caralho, as fotos da Fernanda Young e um café da manhã de hotel cinco estrelas. Algo a se comemorar. __________________________________________________________________ Hoje no Rio de Janeiro : 
Hoje em São Paulo : 

Amanhã (quinta-feira) em São Paulo : SHOW DA NOSSA BANDA "SACO DE RATOS" 
Saco de Ratos é : Mário Bortolotto : Vocal / Fábio Brum e Marcelo Watanabe (guitarras) / Fábio Pagotto (baixo) / Rick Vechione (bateria) Ingressos à R$ 5 - Cerveja em lata à R$ 3 A partir das 23h30 O Café Aurora fica na Rua 13 de Maio, 112 (Bela Vista). http://www.myspace.com/sacoderatos
Escrito por Mário Bortolotto às 17h43
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